sábado, 28 de março de 2009

CAMINHO DE LUZ!



O CAMINHO DA LUZ

DA CHAMADA CARTA DE BARNABÉ

(Século II)


Eis o caminho da luz: se alguém deseja chegar a determinado lugar, que se esforce por seu modo de agir. Foi-nos dado saber como andar por este caminho: amarás quem te criou. Terás veneração por quem te formou; darás glória a quem te remiu da morte. Serás simples de coração e rico no espírito; não te juntarás aos que andam pelo caminho da morte. Terás aversão por tudo quanto desagrada a Deus; odiarás toda dissimulação; não desprezes os mandamentos do Senhor. Não te exaltes a ti mesmo, sê humilde em tudo; não procures glória. Não trames contra teu próximo; não te entregues à arrogância.
Ama teu próximo mais do que a tua vida. Não mates o feto por aborto, nem depois do nascimento. Não retires a mão de teu filho ou de tua filha e, desde a infância, ensina-lhes o temor do Senhor. Não cobices os bens de teu próximo nem sejas avaro; não te unas de coração aos soberbos, mas sê amigo dos humildes e justos.
Tudo quanto te acontecer, recebe-o como um bem, sabendo que nada se faz sem Deus. Não sejas inconstante nem usarás duplicidade no falar; na verdade, é laço de morte a língua dúplice.
Partilharás tudo com teu próximo e não dirás ser propriedade tua o que quer que seja: se sois co-herdeiros das realidades incorruptíveis, quanto mais daquilo que se corrompe. Não serás precipitado no falar, pois a boca é um laço de morte. Tanto quanto puderes, em favor de tua alma, sê casto. Não tenhas a mão estendida para receber e, encolhida para dar. Ama como a pupila dos olhos todo aquele que te dirigir palavra do Senhor.
Relembra, dia e noite, o dia do juízo e procura diariamente a presença dos santos, estimulando com a palavra, exortando e meditando como salvar a alma por tua palavra ou trabalhar com tuas mãos para remissão dos pecados.
Não hesites em dar nem dês murmurando; bem sabes quem é o bom remunerador da dádiva. Guarda o que recebeste, sem tirar nem pôr. Seja-se perpetuamente odioso o Maligno. Julgarás com justiça, não fomentes dissídios, mas esforça-te por restituir a paz, reconciliando os contendedores. Confessa os teus pecados. Não vás à oração, de má consciência. Este é o caminho da luz.

silêncio - solidão - simplicidade


Silêncio – Solidão – Simplicidade: os portais da Intimidade

A intimidade é a medida do amor e o amor é encontro e busca de comunhão que gera doação, acolhida que dá espaço para a revelação;

Intimidade é silêncio em forma de plenitude, totalidade, percepção do mistério que desemboca no irresistível desejo de abarcar na despretensão de possuir ou controlar. É totalidade, integridade unificada para escutar, olhar Aquele que se revela;

Intimidade é deixar de lado ou colocar em plano secundário tudo o que for instrumental e acessório. Significa ter diante do coração o essencial de tudo e do Tudo;

Intimidade significa reclinar a cabeça no coração do amado Senhor para acolher o pulsar do seu coração de carne e ao mesmo tempo tão divino. É o repouso tão passivo e tão ativo no paradoxo do amor que é vida. É a explosão vulcânica de quem não pode conter o ardor das férvidas larvas tão próprio deste irresistível sair de si. Tal dinamismo impetuoso do amor faz o Verbo sair do seio de seu Celeste Pai para, no incontido êxodo, encarnar-se nas entranhas puríssimas da Dulcíssima Virgem Maria, toda pura, toda santa, toda de Deus, feita Mãe de todos, nas dores da paixão!

A intimidade é na verdade, uma iniciativa divina onde, no augusto mistério da encarnação, o Esposo consolida o seu encontro nupcial com esta pobre humanidade, culpada e manchada, ferida e doída;

Intimidade é colocar-se diante deste trono de misericórdia inigualável, todo pronto para Deus. A suprema humilhação do Verbo nos permite de acolher o Deus altíssimo, que se fez o baixíssimo, pequeniníssimo, na solidariedade divina, resgatando o Adão culpado, banido do paraíso;

Intimidade é não querer entender co’a razão, mas adorar com o coração, no silêncio reverente, recolhido, respeitoso, mergulhado no mistério de Quem é, foi, será e vem!

Intimidade é saber calar as razões e suas encenações ou suas ações para dar lugar à suavidade inenarrável do não saber e do não querer ver ou perceber, mas crer, acolher, escolher sem medo de descer, no deixar-se enternecer pelo Eterno que humano quis ser!

Intimidade é silencioso e acolhedor vazio a ser preenchido pela verdade da caridade que encarna a beldade e bondade do infinito, do todo Outro que faz o eu encontrar o seu lugar;

Intimidade é vazio, lugar vago e sem brio, pela pobreza afagado, que se encontra marcado e de que ninguém mais pode ser; Mas será d’Aquele que é só, somente do que é Único!

Intimidade é silêncio profundo, fecundo, o qual na força de sua plenitude cala os gritos, as vozes e ruídos, as interferências nas suas multiformes consistências e exigências; silenciosa escuta da Palavra comunicadora e operosa, transformadora, corajosa, arrebatadora e prestimosa na força unitiva do amor que se faz comunhão, divino vulcão, explosão de vivificação;

Intimidade é este corpo ferido, na cruz pendido, o coração transpassado, o vulto velado pela dor de um ser rendido, todo ofertado, tão fragilizado e sofrido! Lá está Ele, ser humano rendido, tão divino escondido, livremente indefeso, tão doce peso, aquele cadáver, tão teso e tão leso, nas dores da paixão!

Intimidade é este mesmo corpo, vivo ressuscitado, eucaristicizado, para ser presença, amorosa e gloriosa, poderosa e honrosa, de um amor que não se ausenta, mas sempre se apresenta, como dom total, sem reservas e por inteiro;

Intimidade é imitação, discipulado, seguimento, sempre atento do amor, que se faz pão, doce comida, a nossa vida, divina refeição;

Intimidade é como Cristo, ser pão partido, dom partilhado, todo ofertado, oferecido em comunhão;

Intimidade é adoração deste mistério, colher o dom que faz de Si, a santa Vítima, o doce amigo, pascal Cordeiro;

Intimidade é transbordar do Deus Trindade, santa unidade, grã comunhão, mistério augusto, que a nós vem em Três Pessoas, santas e boas, tão sumo Bem!

Intimidade é simplicidade para acolher sem medo de crer o que Deus revela, amor que se entrega com todo o seu ser;

Intimidade é simplicidade, amor e bondade, disponibilidade em se dar e servir, coração de criança, humildade em abundância, mansidão e constância para a paz cultivar!

Intimidade é jardim, bem varrido e florido, para o Esposo agradar; é fonte selada, pelo Amado encantada, água pura de amor! É canteiro enfeitado, de belas flores adornado, de virtudes embelezado, paraíso encantado da pureza o esplendor!

Intimidade é partilha com o Dileto, é amor gratuito e concreto, é tudo por em comum; é amizade verdadeira, determinação certeira de com Ele sempre estar!

Intimidade é silêncio, solidão, simplicidade, santos magos que visitam o mistério do Amor, de comunhão e união, de plenitude transbordante no dinamismo da Missão!




Ó Deus uno e Trino Santo
Dai-nos viver até morrer
Sem no amor esmorecer
Para no céu vos poder ver

Na vossa Santa intimidade
Viva eu sempre em caridade
Em castidade e humildade
Pra dia e noite em Vós viver

Que no silêncio eu vos escute
Na solidão em Vós habite
Que meu espírito e este meu ser
Eu vos adore, ame e sirva
E na feliz eternidade
Eu vos possa sempre ter!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

EU NÃO SOU O MESSIAS!

EU NÃO SOU O MESSIAS!
Um comentário de Jo 3, 22-30.



“Eu não sou o messias, mas sou enviado diante dele” (Jo 3, 28). Ver, assimilar a verdade, deixar-se por ela libertar e plasmar para alcançar a liberdade, eis a marca registrada de São João Batista, o precursor de Nosso Senhor. Sendo enviado diante do Messias, em nenhuma hipótese arvorou-se assumir a identidade ou o papel do Cristo de Deus.
Por mais que pareça óbvio e ululante, é de suma importância cada qual permanecer no seu lugar e lá permanecer, na convicção profunda, deste ser o caminho a ser tomado. As tentações de querer ser o messias na vida das pessoas, das comunidades, instituições e, por conseguinte, da Igreja ou mesmo do mundo, sempre perpassou os corações em sua humana fraqueza. A humildade, que é a verdade, quando é sólida, não dá espaço para ilusões. O humilde não se engana, nem engana. Sabe muito bem que por meio de uma evangelização ousada e de uma fé que opera na caridade, não deve se permitir omitir em fazer das pessoas seguidoras do único Cristo Messias. Sem buscar atrair ou formar discípulos para si, ao máximo será, na vida das pessoas, um ponto de passagem e nunca um ponto de chegada. A desobediência, a presunção, o orgulho, a vaidade, a soberba e todo o triste cortejo de conseqüências nefastas das corrosivas ações na vida das pessoas, fatalmente leva-las-á ao engano profundo.
Cada qual procure conhecer e viver no melhor dos modos e na mais vívida verdade, a missão confiada a si por Deus. Ele nos dará tudo quanto precisamos para o exercício deste ministério-serviço. Efetivamente, lembra-nos São João: “Um homem nada pode receber a não ser que lhe tenha sido dado do céu” (Jo 3, 27). Noutras palavras, tudo recebemos do Senhor, nosso único benfeitor e supremo provedor. Esta visão de fé inspirou Santo Agostinho a dizer em suas “Confissões”: “Dá-me aquilo que pedes e pede-me aquilo que quiseres” (Livro X, n. 10). As criaturas, as instituições, os acontecimentos acabam, de um jeito ou de outro, assumindo um papel de seus ministros, seus canais e seus instrumentos a fim de que os divinos favores ou a divina correção cheguem a nós. O zelo grande deve ser o de amar a Deus. Quem ama a Deus está sempre em vantagem, no lucro certo, na felicidade garantida. Quem no-lo assegura é Paulo quando afirma: “Tudo contribui para o bem daquele que ama a Deus” (Rm 8, 28). Ninguém com isso, deve se sentir autorizado, em nenhuma hipótese, a fazer o mal, nem a se acomodar em não fazer o bem, podendo e devendo fazê-lo.
Não somos marionetes nas mãos de Deus! Ele, em sua sabedoria e providência, sabe dispor de tudo e de tudo tira um bem Mario. Permanece a missão de construirmos com diligência e reta intenção, o Reino de Deus.
Sim, é preciso querer, mas o querer deve ser amor e nada mais é amor senão viver a caridade da Trindade que ao revelar sua vontade, exalta ao máximo nossa liberdade e nos plenifica com sua eternidade!
Certamente, alegrar-se-á o amigo do esposo, ao ouvir deste esposo a voz. Nesta voz, está a Palavra. A alegria de contemplar este Cristo que desposa a Igreja é prenúncio das núpcias eternas da feliz eternidade.
No rastro desta alegria “é necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 30). Desafio grande para o orgulho humano é diminuir, apequenar-se. Sem esta humilde disposição, a evangelização está fadada a reduzir-se a uma triste orquestração de vanglória do evangelizador. Pode até existir eficiência e exuberância nos meios, mas a fecundidade está comprometida. Ele dará a si mesmo, ao invés de dar Cristo. Esta liberdade de saber aparecer e desaparecer, de estar aqui ou ali, de fazer esta ou aquela tarefa, não sentir-se necessário, mas ser disponível, tudo isso é saber diminuir. Assim, Cristo crescerá!
Sem confundir-se com o complexo de inferioridade, a humildade é uma virtude de maturidade humana e espiritual que leva à ousadia apostólica por crer na sublimidade da causa e sobrenaturalidade dos meios. O humilde ao invés de olhar para si, contempla quem o chamou, ungiu e enviou. Conhecerá, valorizará e utilizará no melhor dos modos as ferramentas que Deus a ele disponibilizou. O que foi dado aos outros, bem, isso não é da sua conta. Naquilo que Deus doa e não doa, concede ou nega a cada um de nós, uma visão de fé é sempre uma inesgotável fonte de paz. Mantendo fixo o seu olhar em Deus, ele segue rumo à meta! Seguindo os passos do apóstolo Paulo, o evangelizador, vocacionado a ser também o precursor, prosseguirá para ver se alcança Cristo, pois que foi conquistado por Ele. Deste modo, esquecendo-se o que fica para trás, avançando para o que está adiante, prosseguirá para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus (cf. Flp 3, 12-14).

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Este ditador chamado relativismo!

Ante o grande pensamento de Deus, um pequeno e tão limitado modo de ver o mundo! Uma tentativa de relativização esvaziante de verdades eternas e princípios sólidos sobre quem é o homem. Um desafio para a evangelização e formação dos filhos de Deus.




Para refletir sobre o relativismo ético....




"verifica-se que, por um lado, os cidadãos reivindicam para as próprias escolhas morais a mais completa autonomia e, por outro, os legisladores julgam respeitar essa liberdade de escolha, quando formulam leis que prescindem dos princípios da ética natural, deixando-se levar exclusivamente pela condescendência com certas orientações culturais ou morais transitórias como se todas as concepções possíveis da vida tivessem o mesmo valor. Ao mesmo tempo, invocando erroneamente o valor da tolerância, pede-se a uma boa parte dos cidadãos – entre eles, aos católicos – que renunciem a contribuir para a vida social e política dos próprios Países segundo o conceito da pessoa e do bem comum que consideram humanamente verdadeiro e justo, a realizar através dos meios lícitos que o ordenamento jurídico democrático põe, de forma igual, à disposição de todos os membros da comunidade política. Basta a história do século XX para demonstrar que a razão está do lado daqueles cidadãos que consideram totalmente falsa a tese relativista, segundo a qual, não existiria uma norma moral, radicada na própria natureza do ser humano e a cujo ditame deva submeter-se toda a concepção do homem, do bem comum e do Estado.
(CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, NOTA DOUTRINAL sobre algumas questões relativasà participação e comportamento dos católicos na vida política)


Num livro publicado antes de sua eleição como Romano Pontífice, Bento XVI se referia a uma parábola budista. Um rei do norte da Índia reuniu um dia um bom número de cegos que não sabiam o que é um elefante. Fizeram com que alguns dos cegos tocassem a cabeça e lhes disseram: “isto é um elefante”. Disseram o mesmo aos outros, enquanto faziam com que tocassem a tromba, ou as orelhas, ou as patas, ou os pelos da extremidade do rabo do elefante. Depois, o rei perguntou aos cegos o que é um elefante e cada um deu explicações diversas, conforme a parte do elefante que lhe haviam permitido tocar. Os cegos começaram a discutir, e a discussão foi se tornando violenta, até terminar numa briga de socos entre os cegos, que constitui o entretenimento que o rei desejava.Este conto é particularmente útil para ilustrar a idéia relativista da condição humana. Nós, os homens, seríamos cegos que corremos o perigo de absolutizar um conhecimento parcial e inadequado, inconscientes da nossa intrínseca limitação (motivação teórica do relativismo). A filosofia relativista se apresenta a si mesma como o pressuposto necessário da democracia, do respeito e da convivência. Mas essa filosofia não parece dar-se conta de que o relativismo torna possível a burla e o abuso por parte de quem tem o poder em suas mãos: no conto, o rei que quer se divertir a custa dos pobres cegos; na sociedade atual, aqueles que promovem os seus próprios interesses econômicos, ideológicos, de poder político etc. à custa dos demais, mediante o manejo hábil e sem escrúpulos da opinião pública e dos demais recursos do poder. A "ditadura do relativismo" a que se referiu o sumo pontífice pouco antes de sua eleição ao sumo pontificado, nega coisas definitivas, estáveis e coerentes defendidas pelo cristianismo. A democracia, então, parece que só funciona quando as pessoas tudo relativizam e tudo aceitam, negam elementos e pressupostos essenciais da dignidade e identidade humana marcados pela verdade da revelação divina sobre a pessoa humana.
Eis um desafio!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

santos jovens de calça jeans....

QUEM SÃO OS JOVENS DOS TEMPOS MODERNOS? QUE TIPO DE SANTIDADE É PRECISO VIVER PARA TESTEMUNHAR QUE CRISTO VIVE E AGE EM MEIO A NÓS? UMA PISTA....
ALGUÉM SUGERIU.....


Precisamos de Santos Precisamos de Santos sem véu ou batina. Precisamos de Santos de calças jeans e tênis. Precisamos de Santos que vão ao cinema, ouvem música e passeiam com os amigos. Precisamos de Santos que coloquem Deus em primeiro lugar, mas que se "lascam" na faculdade. Precisamos de Santos que tenham tempo todo dia para rezar e que saibam namorar na pureza e castidade, ou que consagrem sua castidade. Precisamos de Santos modernos, santos do século XXI, com uma espiritualidade inserida em nosso tempo. Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e as necessárias mudanças sociais. Precisamos de Santos que vivam no mundo, se santifiquem no mundo, que não tenham medo de viver no mundo. Precisamos de Santos que bebam coca-cola e comam hot dog, que usem jeans, que sejam internautas, que escutem disc man. Precisamos de Santos que amem apaixonadamente a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um refri ou comer uma pizza no fim-de-semana com os amigos. Precisamos de Santos que gostem de cinema, de teatro, de música, de dança, de esporte. Precisamos de Santos sociáveis, abertos, normais, amigos, alegres, companheiros. "Precisamos de Santos que estejam no mundo; e saibam saborear as coisas puras e boas do mundo, mas que não sejam mundanos". (João Paulo II).

AQUELE QUE NOS AMAVA, TAMBÉM REZAVA, CAMINHAVA SOBRE AS ÁGUAS E SEUS AMIGOS ENCORAJAVA

Jesus os obrigou a entrar na barca: A barca é símbolo da Igreja. Lá estarão unidos, permanecerão próximos aqueles a quem Jesus confiou esta pequena missão de ir para as águas mais profundas e logo após confiará encargos de grande responsabilidade. Levarão a boa nova até os confins da terra, a todos os povos, línguas e razões. Construir, na força de sua ressurreição um reino sem fronteiras, cujo raio de amplitude é o próprio mundo. Um reino que deverá atingir a terra toda. Para isso, o Senhor fará de sua Igreja um sacramento, isto é, um sinal visível, eficaz de sua graça, de sua eleição. Eles deveriam ir à sua frente. Assim aconteceu com João Batista que esteve à frente, precedeu o Senhor para preparar-lhe os caminhos. E depois de tudo, quando apontou o Cordeiro de Deus, soube desaparecer, soube ocultar-se. Ele, o Cristo, é que permanecerá. Alegremente e firmemente convictos do próprio papel de facilitadores destes encontros de Jesus com as pessoas, tanto o Batista, quanto os apóstolos e todos os evangelizadores de todos os tempos, souberam diminuir para a Palavra encarnada crescer e florecer, frutificar na vida de quantos Ele ama e deseja salvar.


Logo depois de despedir deles, Jesus subiu ao monte para rezar. A oração em Jesus é uma constante, uma necessidade ontológica (ligada ao seu ser). É alimento, é oxigênio, é vida, é razão de ser. Digne-se o Senhor fazer-nos pessoas orantes, a exemplo de Sua Divina Majestade!
Jesus viu os discípulos cansados de remar. Ele também nos vê em nossas fadigas e lutas. Sabe tudo e seu olhar contemplativo não é passivo ou inerte. É um olhar de cuidado, uma visão penetrante, envolvente, encorajadora e solidária. Quantas vezes estamos cansados de remar contra um mar revolto da história da Igreja e da humanidade. Lá estamos sempre a nos deparar com as tribulações, provações, tentações e desafios de todo tipo. O vento dos acontecimentos nos desafia e parece que naufragaremos em meio às impiedosas lufadas. Mas, a certeza que Ele nos olha, deve gerar em contrapartida uma convicção de não estarmos sós, nem a remar inutilmente. Não é vão nosso esforço, nem é desperdício o investimento de nossas vidas nestes interesses do Reino! Ele nos vê!


Pelas três da madrugada, ele segue andando sobre as águas, em hora difícil, num momento dramático de penosa vigília. Estavam eles, no auge do horário do sono, pescadores rudes, acostumados ao furor do vento e às borrascas das ondas a lutar para a pobre barca não soçobrar. No entanto, Ele caminha sobre as águas. Que simbolismo forte, marcante, significativo! Caminhar sobre as águas é um gesto divino, de poder sobre os elementos naturais de grande vigor e grandeza, mas que estão submissos ao seu Criador. Caminhar sobre as águas que trás um simbolismo carregado de matizes do vigor salvífico do Mestre. Ele tem tudo debaixo de seus pés: as tribulações, as dores, os medos, as tentações e tudo mais que parece fazer levar para o fundo do mar a frágil embarcação. Nada poderá ir além de suas permissões, nem impedirá que seus desígnios se realizem. Se for assim, então por que se esforçar? Entra aqui o mistério da graça e da liberdade humana. Somos convocados pela Providência de Deus a fazer o que nos estiver ao alcance. Lutar, remar, insistir, buscar soluções, mobilizar forças, suscitar sensibilidades, convencer, arregimentar colaboradores, detectar possibilidades, enfim, não deixar de fazer o que nos for possível. Ser conscientes, conseqüentes e coerentes com o Deus uno e trino, grande protagonista da história que age na força do ressuscitado que nos dá o seu Espírito para vivermos esta missão que amorosamente nos foi confiada. Que lição consoladora e encorajadora, sobretudo ao percebermos nossa pequenez ante as ondas bravias e altaneiras dos nossos confrontos com as realidades do nosso tempo e do nosso espaço!


Pensaram que era um fantasma: não poucas vezes isso pode acontecer e confundimos as coisas, não enxergamos com clareza, por detrás das cruzes o Senhor abandonado e crucificado. Fica-se na superficialidade de uma leitura aparente, bastante periférica. Vê-se a dor, o drama, mas não se atinge o cerne de tudo: o mistério salvífico embutido na cruz!
Coragem, sou eu! Não tenhais medo. São estas as palavras com as quais ele acalentou os discípulos assustados, inseguros ante o poder por Ele manifestado ante o mar rebelde e a noite densa. Uma presença que consola, fortalece, anima e compromete. Para nos lançarmos neste serviço do reino, dar nome aos medos e superá-los, é fundamental. A coragem não é ausência do medo, mas mesmo com medo, superá-lo e continuar indo em frente. Não deixar-se intimidar ou paralisar por ele é abrir portas para as tantas possibilidades que a Providência de Deus nos abre para seguirmos em frente, para sermos e fazermos que somos chamados a ser e a fazer. Cultivar uma sensibilidade nova, construída na força das convicções que brotam do mistério de Cristo morto e ressuscitado, de sua presença constante em meio à história que com Ele construímos. Ele está no meio de nós! São palavras que entraram na liturgia, na inteligência da fé, mas não devem faltar nas convicções profundas do agir, das iniciativas vivas e operantes pelos interesses do Reino.


Os discípulos não compreenderam nada a respeito dos pães que tinham sido multiplicados. Seus corações estavam endurecidos. “Hoje não endureçais os vossos corações!” Esta admoestação, dita por Deus através do Sl 94 é um alerta precioso. Quando se perde o sentido orientador da fé, a força vitalizadora do amor e a dinâmica impulsionadora da esperança, o coração se fecha e petrifica. E quanto mais ele se petrifica, tanto mais ele se desnorteia e se afasta do rumo. O enfraquecimento da vontade e o obscurecimento da inteligência têm efeito devastador na vida de um alguém que experimentou Deus. Perder a dimensão eucarística da vida, simbolizada na partilha dos pães, significa despojar a vivência cristã de sua luz e de sua razão de ser. Partilhar, criar unidade, ampliar uma vasta rede de comunhão na diversidade das identidades e das possibilidades, transformar a vida em doação compromisso, tudo isso oxigena, ilumina, abre horizontes inusitados para a realização da pessoa humana em Deus e Deus na pessoa humana.

sábado, 1 de novembro de 2008

No princípio era o Verbo! O verbo caro!


Caro Filoteu

Resolvi partilhar contigo umas considerações, muito simples, em forma de uma conversa com a Palavra eterna do Pai. Tu verás que, ao expor tais escritos, meu objetivo é ampliar esta contemplação a fim que contemples comigo e com Ele converses, fazendo-me companhia. Eu converso com Ele como Verbo caro que significa Palavra querida, ou seja, Palavra a quem me afeiçoei, por quem nutro estima. Queira o Pai que nossa amizade pela Palavra seja assim e cresça sem medidas. Um outro conceito de caro, vem do Latim. Caro quer dizer carne. Isso mesmo, a Palavra se fez carne. Peço que mergulhes comigo neste meu diálogo com o Verbo caro.


Aquele que no princípio era o Verbo (cfr. 1Jo 1,1), isto é, antes de todas as coisas, antes de tudo e de todos, na eternidade sublime e plena da adorável Trindade, Ele, Deus com o Pai, Ele consubstancial com o Altíssimo, eis que o contemplamos nos esplendores do seio paterno, gerado eternamente, segunda Pessoa da comunidade Trinitária. Vinde adoremos!

Eu me inclino ante a Ti, Verbo que és Palavra, isto é ação, força operativa, transformadora. Mas, Tu, ó Sabedoria eterna, não és uma mera idéia ou uma energia, nem um ilustre personagem que entrou na história. És Pessoa, um alguém real e verdadeiro. És Deus e És homem.

Falei que te contemplo. Quem vejo? Aquele que Deus revela ou quem meu egoísmo ou minha fantasia idealizante quer ver? Quem contemplo? Que sei de Ti? afinal, quem És?

Sigo com humildade os passos e orientações do teu apóstolo: "Ninguém jamais contemplou a Deus" (1Jo 4, 12). E por que? João denuncia os "espirituais" que se gabavam de conhecer a Deus por intuição direta. Além disso, o prólogo do evangelho joanino nos afirma peremptoriamente: "Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer" (1Jo 1, 18). E ainda, nas palavras que brotaram de tua própria boca, Tu que és a Palavra: "Também o Pai que me enviou dá testemunho de mim. Jamais ouvistes a sua voz, nem contemplastes a sua face" (Jo 5, 37). Ó meu bom e misericordioso Redentor, eu te rogo por teus infinitos méritos: Leva-nos a todos a compreender e acolher a grande verdade de que a comunhão e a visão estão unidas! Não nos é possível ver-Te se não estamos em unidade, pelo Teu Espírito, contigo e com o Pai que te enviou a nós! Ele que é Teu e nosso Pai. Tal unidade contigo significa necessariamente comunhão com os pastores que legitimamente colocaste à frente de tua Igreja e todos quantos, apesar de suas fraquezas humanas, devem nos conduzir, são mediadores de tua vontade, exceto se estiverem afastando-nos de teus mandamentos ou da verdade ensinada oficialmente por tua Igreja. Estar em comunhão contigo significa viver em fraternidade, reconciliar-se, amar na gratuidade. Em suma, ver-Te está longe da presunção de ver tudo quanto a humana vaidade me faz ver sobre Deus ou sobre o Reino presente em Tua Igreja. Não por nada, os dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 30-35) ao contemplarem a Ti, ó sol divino ressuscitado, ao verem aquele pão partido por tuas mãos santas e veneráveis, de repente, diante deles desapareceste. E logo no melhor da festa! Que fizeste, meu Senhor? Não querias fartar aqueles olhos dos discípulos com o esplendor de Tua glória? Sim, entendo bem. Desapareceste de sua vista exatamente para que te encontrassem na comunidade, junto com os demais. E para tanto, o medo da escuridão, a apreensão do dia a declinar deixou de ser um problema. O medo desapareceu pois as verdadeiras trevas que eram as dúvidas, a incredulidade, uma leitura superficial dos acontecimento, tanta escuridão foi eclipsada pela tua luz cheia de fulgor, ó divino ressuscitado.

Para nós outros, que acreditamos no testemunho dos apóstolos, nós que deles recebemos a fé, trilhamos o caminho seguro. E qual é esse caminho seguro, senão caminhar na comunhão, iluminados pela bruxuleante luz da lamparina da fé, alimentada pelo combustível da caridade? Que engano perigoso é este de amparar-se nas certezas pessoais de visões "luminosas" sem este imprescindível aval de uma comunidade regida pela autoridade apostólica! Tal autoridade tem o selo de tuas palavras: "tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu" (Mt 18,18). Como se não fosse o bastante, prometeste tua inefável presença onde dois ou mais estiverem reunidos em Teu nome (cf. Mt 18, 20).

Verbo caro, és Palavra-ação. Então, tudo recebeu vida, existência por meio de Ti. És a vida (cf. Jo 14, 6) que me arrancas da morte. E por seres vida, és luz (cf. 1Jo 1, 4); com efeito, Tu te auto-proclamaste a luz do mundo e quem te segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (cf. Jo 8, 12). Seguir-Te significa dissipar as trevas que continuamente brotam em nós. Como João, o enviado de Deus, somos testemunhas da luz (e tomará que o sejamos de fato!). Mas, eu sou trevas, como poderia ser testemunha da luz?

Ó Verbo caro, Tu és a verdadeira luz que iluminas todo homem. Basta deixar-me iluminar por Ti e cumprirei minha missão de ser testemunha da luz. Por isso, faço-Te esta pergunta: Que significa deixar-se iluminar por esta luz? Enquanto me pergunto, recordo-me de uma musiquinha que marcou meu passado:

"Minha luz é Jesus, e Jesus me conduz, pelos caminhos da paz"

E ainda,

"Deixa a luz do céu entrar, deixa a luz do céu entrar, abre bem as portas do teu coração e deixa a luz do céu entrar".

E ainda mais um música que nem da Igreja era, mas carrega consigo uma capacidade forte de evocar este convite a acolher a luz:

"Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer".

Deixar-se iluminar é expor-se a Ti, Jesus, sol divino e, com os raios de Tua beleza, de Tua verdade e de Tua bondade colher as graças com que nos prodigalizas.

Deixar-se iluminar efetiva e afetivamente, progredir em docilidade, abertura é deixar-se trabalhar, podar, plasmar, moldar, receber os acabamentos de tuas habilidosas mãos de artesão da mais refinada perfeição. Deixar-se iluminar é dispor-se a elotrocultar-se com aquelas descargas elétricas fulminantes de tua ressurreição. Fulminantes, entenda-se, par tudo quanto está morto em nós, em função do obscurantismo do pecado. Ou seja, exatamente aquilo que em tua Palavra o discípulo amado descreve como "o mundo não o reconheceu" (cf. 1Jo 1, 10). Ou de maneira mais contundente, "Veio para o que era seu e os seus não o receberam" (cf. 1Jo 1, 11).

Deixo aqui ó caro Senhor, meu pedido para sempre te recebamos. Eu e teus filoteus queremos viver a experiência de sermos tuas Betânias, tuas moradas, teu lugar de repouso. Nossa amizade, é Verbo caro se traduza não em meros sentimentos, mas em vida comprometida, acolhida e ofertada.

A ti, Filoteu deixo este diálogo para que nele mergulhes e neles te percas e te encontres com aquela simplicidade e profundidade que os verdadeiros adoradores em espírito e verdade ousam viver.

Voltaremos a dialogar com o Verbo caro!

Abraço e bênção, deste filoteu, Pe. Marcos.