sábado, 17 de outubro de 2009

A pessoa humana e sua dignidade



Aos homens e mulheres, criados à imagem e semelhança de Deus foi confiado o domínio de toda a criação[1] e lhes foi concedido o dom de serem pessoas, isto é, seres irrepetíveis, incomparáveis. A relação com Deus assume uma perspectiva de similitude geral de natureza: inteligência, vontade, poder[2]. «e o fizestes pouco menos do que um deus, coroando-o de glória e beleza. Para que domine as obras de suas mãos sob teus pés tudo colocaste»[3]. Por isso, professamos que «todo homem e toda mulher, por mais insignificantes que pareçam, têm em si a nobreza inviolável que eles próprios e os demais devem respeitar e fazer respeitar»[4].

A grandeza e a dignidade da pessoa humana faz brotar a possibilidade de buscar razões, buscar um sentido para tudo o que existe. Poder ir até as causas mais profundas, explicações que exigem por sua vez mais respostas, para novos e ininterruptos questionamentos que nascem.
«Os animais do campo, comenta S. Agostinho, sejam grandes ou pequenos, a vêem, mas não podem fazer-lhes perguntas. Não lhes foi concedida razão capaz de julgar mensagens dos sentidos. Aos homens, porém, é dado indagar para perceberem o Deus invisível através da compreensão das coisas criadas»[5].

Deus o abençoe e ajude a cultivar o senso desta beleza e desta dignidade: os que foram criados à imagem e semelhança de seu Criador!

[1] Cf. Gn 1, 26-27.
[2].Cf. Bíblia de Jerusalém, nota n, p.32.
[3] Sl 8, 6-7.
[4] CELAM, Evangelização no presente e no futuro da América Latina. Conclusões da III Conferência geral do Episcopado Latino-Americano, 13-02-1979 n. 317. Editado pelas Paulinas, S. Paulo, 1979. Usaremos doravante a sigla DP = Documento de Puebla.
[5] S. AGOSTINHO, Confissões, L.10, n.10.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

o pobre Lázaro: uma reflexão!




As exigências da justiça social no Evangelho: o exemplo de Lázaro, o pobre.

«havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e cada dia se banqueteava com requinte. Um pobre, chamado Lázaro, jazia à sua porta, coberto de úlceras. Desejava saciar-se do que caía da mesa do rico... e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado.
Na mansão dos mortos, em meio a tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro em seu seio. Então exclamou: “Pai Abraão tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou torturado nesta chama”. Abraão respondeu: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante tua vida, e Lázaro por sua vez os males; agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E além do mais, entre nós e vós existe um grande abismo, a fim de que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o possam, nem tampouco atravessem de lá até nós”.
Ele replicou; “Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que leve a eles seu testemunho, para que não venham eles também para este lugar de tormento”.
Abraão, porém respondeu: “Eles têm Moisés e os Profetas: que os ouçam”. Disse-lhe ele: “Não, pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se arrependerão”. Mas Abraão lhe disse: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão»
[1].

Este texto, todo transcrito nesta postagem tem como objetivo mostrar a responsabilidade e o compromisso dos cristãos, especialmente os que possuem mais recursos, neste processo de administrar os bens de Deus. Todo este capítulo 16 de Lucas é uma inteira catequese sobre o uso das riquezas. Trata-se de uma parábola proposta de considerar a condição presente à luz da eternidade.
O homem rico que usava mal dos seus recursos materiais, porque o seu egoísmo profundo o centralizava em si mesmo, nas próprias comodidades e nos próprios caprichos é um ensino forte, exigente, comprometedor. Como se percebe, é um alguém sem nome, um anônimo nesta história de salvação uma vez que no seu egoísmo, ele se excluiu da salvação de Deus. Este rico é imagem de um alguém despersonalizado, em vista de sua existência falida, esterilizada, tornado infrutífero pela sua centralização em si mesmo. Não pensar nos outros necessariamente significa ignorar o próprio Deus, Ele que é uma comunidade, a plena comunhão, a partilha, diversidade e unidade no seu mistério trinitário. O eu se descobre relacionando-se com um tu, para formar um nós. Quem não se relaciona não ama e quem não ama não pode descobrir-se. O rico ficou conhecido como epulão, isto é, banqueteador, um comilão. Como dizia Paulo, «seu fim é a destruição, seu deus é o ventre, sua glória está no que é vergonhoso, e seus pensamentos no que está sobre a terra»[2]. Jesus tira o pobre do anonimato: ele tem um nome, ele é alguém, seu nome é Lázaro que significa “Deus ajuda”. Fome e doença o fazem prostrar-se diante da porta do rico, esperando de matar a fome de tudo que cai na mesa do rico, esperando de matar a fome de tudo que cai da mesa farta do abastado egoísta. Até mesmo o cachorro tem piedade de Lázaro e o rico não percebe, é negligente.
Esta parábola nos oferece um quadro feito de imagens muito sugestivas, simples, de tonalidades fortes, sem detalhes ou refinamentos literários. É por isso que nos obriga a buscar sinceramente o essencial. De fato, no tempo o homem decide o seu destino eterno, vida ou morte, e não existe outra possibilidade de opções. Quem confia em si mesmo e em uma felicidade egoísta, construída com as próprias mãos, entra nas trevas e desde já é um cego, ao ponto de não ver o mendigo sentado à porta de casa.
O silêncio do pobre mendigo parece ser o traço característico do vulto de Lázaro. Duramente provado pela vida, descuidado por aqueles que poderiam ajudá-lo, ele se cala. Nenhuma palavra contra Deus ou contra os homens. Nem rebelião, nem críticas, nem inveja. A morte chega para Lázaro como uma libertação. O sono que desfecha o percurso terreno se apresenta como um divisor de águas implacável, determinante e sob a luz inatacável da verdade que brota de Deus cada qual segue o seu infalível destino eterno. Cada um colherá o que plantou.
Jesus retira o véu e nos introduz na eternidade mostrando-nos o grande banquete da eternidade. Lázaro é um dos destacados comensais. É como diz a Escritura: «Levanta do pó o fraco e do monturo o indigente, para os fazer sentarem-se entre os nobres e colocá-los num lugar de honra»[3]. Oposta é a sorte do rico que entre os tormentos infernais vê o pobre do outrora e ousa pedir auxílio para sua inexorável pena. O ardor lhe devora o paladar, o mesmo paladar que antes de deleitava em finas iguarias. As opções da vida presente selam de maneira definitiva a imutável as condições da vida eterna. Por isso, como o apóstolo Paulo, o cristão pensa e vive em função da eternidade: «Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas»[4].
Nem mesmo um milagre como a ressurreição de um morto – diz Jesus fazendo alusão a si mesmo – poderia aliviar o endurecimento do coração de quem incessantemente se recusa a escutar e levar à sério o que dizem as Escrituras. Quem converte e salva não são necessariamente os prodígios (até a ressurreição de Lázaro[5], da filha de um chefe[6], do filho da viúva[7] e do próprio Senhor[8]) não foram suficientes para convencer as pessoas fechadas e de coração duro. Sobre estas dificuldades da aceitação das óbvias evidências da ressurreição do Senhor por parte das lideranças religiosas do tempo de Jesus, se percebe o quanto essa verdade é grande. Eles tiveram uma ótima oportunidade de tornarem-se testemunhas da ressurreição de Jesus e permaneceram expectadores que preferiram vantagens materiais, prestígio e acomodação. Caminharam na mentira. Por isso, nem a ressurreição do Senhor para estes conseguiu mudar os rumos de uma opção direcionada por um coração endurecido. Somente um encontro silencioso, humilde, orante e meditativo, reflexivo e contemplativo com a Palavra de Deus. Um encontro que leve a pessoa a se dispor a viver e transbordar o mistério contemplado, somente isso poderá levar a uma transformação consistente de quem necessita de encontrar-se com o perdão e a graça revigoradora de Deus. São Luís Gonzaga, outrora nobre, fez-se religioso; ele reflete com muita sabedoria e precisão sobre esta realidade: «Não devemos blasonar por causa do nosso nascimento, porque no fim da vida as cinzas de um príncipe não se distinguem das de um pobre qualquer!
Quem mais alto está por destino do nascimento, pela riqueza de bens, pela elevação da cultura e do engenho, tanto mais deve prestar contas a Deus dos seus atos e da sua vida.
Quanto menor do que os outros o homem se fizer, tanto maior será, porque quanto mais alguém é humilde, tanto mais semelhante é e chegado a Cristo, o qual será acima de todos»[9]. Nesta mesma linha S. Gregório Magno ensina: «Que cada um seja juiz equilibrado entre si e os pobres. Que uma comiseração alegre e segura descarte qualquer falta de confiança; e aquele que ajuda ao indigente compreenda que está dando a Deus a esmola que distribui»[10].
Comenta o doutor místico: «Os sabores que deliciam o paladar ocasionam diretamente gula e embriaguez, cólera e discórdia, falta de caridade para com o próximo e os pobres, como teve para com Lázaro aquele mau rico, que se banqueteava cada dia esplendidamente (Lc 16, 19). Daí nascem ainda as indisposições corporais, as doenças, e também os movimentos desregrados, porque se aumentam os incentivos da luxúria. Por sua vez, fica o espírito como submerso em grande torpor; o desejo e o gosto dos bens espirituais diminui de tal sorte que já não os pode suportar, nem mesmo se deter ou se ocupar neles. Esse gozo produz ainda o descontentamento de muitas coisas, distração dos demais sentidos e do coração»[11].Lázaro é acolhido pelos anjos do céu e Deus quer que os Lázaros de hoje sejam acolhidos pelos anjos da terra que são os cristãos os quais como mensageiros do Senhor devem assumir a realidade forte e exigente que somente a fé permite de enxergar: Lázaro é Jesus, o Cristo, disfarçado. Se lermos atentamente o texto de Mateus a respeito do juízo universal poderemos nos convencer disso[12]. Com efeito, uma figura sobrenatural emana da figura de Lázaro: é Jesus o qual não considerou um tesouro imperdível a sua natureza divina, mas se fez pobre para nos fazer participantes dos seus bens. Seu eterno e infinito amor O faz apresentar-se nas vestes da humildade e o fez atravessar o abismo existente entre o céu e a terra. E Jesus se senta à porta do nosso coração e bate... : «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo»[13]. Que Ele não permaneça faminto nos irmãos por não termos aberto para ele a porta do nosso coração como foi o caso do rico epulão.
[1] Lc 16, 19-31.
[2] Flp 3, 19.
[3] 1Sm 2, 8.
[4] Flp 3, 20-21.
[5] Cf. Jo 11, 1-44.
[6] Cf. Mt 9, 18-19.23-26. Veja-se também Mc 5, 21-24.35-43 e Lc 8, 40-56.
[7] Cf. Lc 7, 11-17.
[8] Cf. Mt 128, 11-15.
[9] R. BRUNELLI, Um homem chamado Luís, Loyola, S. Paulo, 1991, p. 113.
[10] S. GREGÓRIO MAGNO, Sermão sobre as coletas, XI sermão in Sermões, Paulus, S. Paulo, 1996, n. 2.
[11] S. JOÃO DA CRUZ, Salita del monte Carmelo, L. III, cap. 25.
[12] Cf. Mt 25, 31-46.
[13] Apc 3, 20.

A justiça na Escritura Sagrada

Como poderemos compreender a justiça a partir da Sagrada Escritura? A própria Escritura fala por si. Os profetas, Jesus, os apóstolos foram pregoeiros deste elemento fundamental do cristianismo. Não se pode entender o discipulado para com a pessoa de Jesus sem a comunhão de bens, sem o devido desprendimento em função de um bem maior que é o bem de todos.

A Escritura, na força dos profetas exprime um grito fortíssimo em favor dos fracos, dos excluídos e oprimidos. Uma das vozes mais eloqüentes é a do profeta Amós quando denuncia aqueles que enganam, roubam com balanças adulteradas, os que compram o fraco com prata e o indigente por um par de sandálias[1]. O profeta Miquéias denuncia os ricos cheios de violência, as mentiras dos habitantes e as falsidades[2]. O profeta Isaías empresta seus lábios para Deus denunciar o seu povo: «Ai dos que promulgam leis iníquas, os que elaboram rescritos de opressão para desapossarem os fracos do seu direito e privar da sua justiça os pobres do meu povo, para despojar as viúvas e os órfãos»[3]. A literatura sapiencial também aborda esta realidade: «Ao homem do seu agrado ele dá sabedoria, conhecimento e alegria; mas ao pecador impõe como tarefa ajuntar e acumular para dar a quem agrada a Deus»[4].

O Novo Testemento encontra em São Tiago um caloroso defensor dos pobres. Ele já afirmava, na sua epístola, em tom de denúncia: «Meus irmãos, a vossa fé em Nosso Senhor Jesus Cristo glorificado, não deve ser admitir a acepção de pessoas. Assim, pois, se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e a outra, com suas roupas sujas e derdes atenção ao que se traja ricamente e lhe disserdes: “Senta-te aqui neste lugar confortável” enquanto dizeis ao pobre: “Tu fica em pé aí, ou então: “Senta-te aí em baixo do estrado dos meus pés” não estais fazendo em vós mesmos discriminação? Não vos tornais juízes com raciocínios criminosos? Atentai para isto, meus irmãos: não escolheu Deus, os pobres em bens para serem ricos na fé herdeiros do Reino que prometeu ao que amam? E, no entanto, vós desprezais o pobre! Ora, não são os ricos que vos oprimem, os que vos arrastam aos tribunais? Não são eles os que blasfemam contra o nome sublime que foi invocado sobre vós? (...). Mas se fazeis acepção de pessoas cometeis um pecado e incorreis em condenação da Lei como transgressores»[5]. Prosseguindo sua denúncia profética, São Tiago nos ajuda a ver a gravidade de uma postura de dependência das riquezas quando estas submetem o rico ao ponto deste oprimir e explorar os mais pobres. Falaremos mais adiante destes que até ajudam e se tornam benfeitores de obras de caridade, porém nem podem imaginar a idéia de transformação das estruturas injustas e pecaminosamente desiguais. Noutras palavras, as soluções paliativas, imediatas podem ser mantidas, mas que as vítimas permaneçam para que o lucro e as vantagens não sejam comprometidos. A esses, a denúncia vigorosa do apóstolo se faz ouvir: «Pois bem, agora vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que estão para vos sobrevir. A vossa riqueza apodreceu e as vossas vestes estão carcomidas pelas traças. O vosso ouro e a vossa prata estão enferrujados e a sua ferrugem testemunhará contra vós e devorará vossas carnes. Entesourastes como que um fogo nos tempos do fim! Lembrai vos de que o salário do qual privastes os trabalhadores que ceifaram os vossos campos, clama e os gritos dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos, vivestes faustosamente na terra e vos regalastes; vós vos saciastes no dia da matança»[6].

João, o evangelista, que antes proclamara que «Deus é amor»[7] afirma que viver a vida de Deus significa também amar. Este amor, longe de especulações ou sentimentalismos vazios e alienantes significa não amar apenas com palavras e com a língua, mas com ações e em verdade[8]. Amar significa dar a vida pelos irmãos[9]. E dar a vida significa viver a partilha, a comunhão: «Se alguém, possuindo bens neste mundo, vê seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?»[10].

[1] Cf. Am 8, 4-6.
[2] Mq 6, 12.
[3] Is 10, 1-2.
[4] Ecl 2, 26.
[5] Tg 2, 1-7.9.
[6] Tg 5, 1-5.
[7] 1Jo 4, 8.16.
[8] 1Jo 3, 18.
[9] 1Jo 3, 16.
[10] 1Jo 3, 17.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Saber! pra que? por quê?


Saber, por quê? Pra quê? Hoje, festa do grande São Bernardo, abade e doutor da Igreja, podemos dele aprender as verdadeiras motivações de saber...
Dizia o grande mestre:
"Existem alguns que querem saber unicamente para saber: vergonhosa curiosidade!
Outros querem saber onde se conheçam que são sábios: vergonhosa vaidade!
outros ainda, querem saber para vender o próprio conhecimento seja por lucro, seja por buscar o prestígio: vergonhoso tráfico!
Mas, existem outros, ao invés, que querem saber para a edificação dos outros, e isto é caridade;
existem outros que querem saber para edificar a si próprios e isto é prudência.
De todos estes, apenas os dois últimos conhecem o valor da ciência e sabem usá-la".

ELE PERDEU A CABEÇA!



Lectio de 1/agosto/2009
Mt 14, 1-12.

A experiência de Herodes, homem inescrupuloso, covarde, fraco, sujeito às influências de Herodíades, sua sobrinha, filha de Aristóbolo, seu irmão e casada com seu outro irmão Filipe é sintomática.
Com efeito ao casar-se com Herodíades, enquanto esposa de Filipe, Herodíades mudou de marido porque afinal, Filipe é uma figura apagada, inexpressiva...
João Batista anunciou que isso não é permitido. No Levítico está escrito: “não descobrirás a nudez da mulher de teu irmão, pois é a própria nudez de teu irmão” (Lv 18, 16). Em suma, é um adultério.
Toda uma celebração ensejou, em momento de entusiasmo impensado uma promessa que deveria ser cumprida. Herodes Antipas acabou tendo que cumprir a promessa de decapitar o precursor. Herodíades, através de sua filha Salomé, vingou-se ferozmente do seu desafeto.
Mensagens:
- o quanto o jogo de poder revela personalidades fragmentadas, vingativas, mergulhadas no poço sem fundo da ambição que revela egoísmo e soberba; em suma, a que ponto o jogo de poder leva pessoas a serem cruéis, inescrupulosas, iracíveis e malignas.
- a castidade matrimonial é corajosamente defendida por um celibatário. João Batista dá a vida por esta causa. A mentalidade utilitarista é sempre uma forma bastante sombria de usar as pessoas e delas se aproximar somente por motivações interesseiras, em função de vantagens pessoais. Tal mentalidade revela a falta de integridade, de saber acolher os limites e as riquezas que estão presentes em cada pessoa ou em cada situação que a Providência coloca ao nosso lado ou põe à nossa disposição. Tornando-se insaciável, a mentalidade tacanha levará o indivíduo a buscar vantagem em tudo, sem levar em conta os limites;
- o rei se entristeceu: não queria levar as coisas ao extremo de um assassinato, mas não poderia voltar atrás na sua palavra e fez o que não queria. Quando as pessoas se deixam levar de pecado em pecado ao fundo do poço acabam sendo constrangidas a fazer o que não querem.
- os discípulos de João vão anunciar a Jesus o ocorrido. Nosso Senhor sempre acompanha as coisas e este martírio foi o coroamento de seu primo e precursor foi a confissão e a profecia de um homem que se agigantou querendo que Cristo crescesse para que ele diminuísse. E ele diminuiu, sendo por isso, grande, muito grande!

RHEMA: Corações íntegros, puros, retos, fiéis, humildes, vivem o projeto de Deus e não entram no poço sem fundo da ambição que revela um coração disperso, fragmentado pela ditadura das paixões

sábado, 28 de março de 2009

Um referencial de amor no calvário, no presépio e no sacrário!





AS REMINISCÊNCIAS DO NATAL PARA UMA COMPREENSÃO DO REINO DO CRUCIFICADO QUE RESSUSCITOU


A pouco, celebrávamos o mistério da natividade do Senhor. Não somente um mistério gozoso, mas que porta em si, já as dores da profecia do Menino Rei.
Na solenidade da Epifania, a liturgia nos apresentava os magos que indagavam a respeito do Rei dos judeus que acabava de nascer (cf. MT 2, 2). Certamente ele é Rei, mas a partir de parâmetros e dentro de um sentido bem pouco entendido pelos mortais. A pergunta que Pilatos, anos depois faria a este menino feito homem adulto, nos introduz nesta verdade: “Tu és rei?” Ao que responderá o Senhor “Tu o dizes eu sou rei” (Jo 18, 37). Encimado na cruz havia o letreiro: “Jesus Nazareu, rei dos judeus” (Jô 19, 19). As atitudes ante este rei foram as mais diversas; acolhimento como foi o caso de Maria, José, os pastores, os magos, João Batista, os discípulos, os amigos de Betânia, Madalena e outras pias mulheres; rejeição como foi o caso de Herodes, Judas Iscariotes, várias lideranças religiosas, Pilatos e outros. Cada um deve se posicionar ante Aquele que “foi colocado para a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e como sinal de contradição” (Lc 2, 33).
Ele é Rei. Mas, de que reino? Qual a razão das pessoas humanas não compreenderem o seu sentido e sua consistência?
Para responder a essa pergunta, é fundamental entender ou acolher que Deus não está a serviço dos projetos humanos e de suas realizações históricas, ainda que o “programa” de Deus é a pessoa humana. O homem não deve apenas ser libertado dos estorvos ou da hostilidade dos seus semelhantes, mas libertado de si mesmo, porque, só assim, será livre para Deus. A profecia de Miquéias, a respeito do “chefe que governará Israel” (Mq 5,1, cf. Mt 2, 6), adquire uma interpretação inteiramente nova na vida de Jesus. Seu cetro será a verdade; seu poder a misericórdia; seus nobres, os pobres e os humildes; todos aqueles para os quais Deus é mais importante do que eles próprios. Seu exército será composto por “idealistas” que “perdendo” suas vidas, servirão a muitos de testemunho de que chegou a vitória final. Seu evangelho será a humildade e a santidade.
Tanto Herodes, quanto as lideranças religiosas responsáveis pela morte de Jesus, quanto Judas Iscariotes ou mesmo Pilatos e as lideranças de todos os tempos, incluindo obviamente as atuais, não poucas vezes buscaram e buscam a si mesmos em uma frenética meta da projeção essencialmente egolátrica, gananciosa, espúria. Jesus o alertara: “Sabeis que os governantes das nações as dominam e os grandes a tiranizam” (Mt 20, 25). O poder tem mostrado sua face plúmbea, sinistra, ainda que tenha havido pessoas que dele se serviram para fazer o bem e promover as pessoas. A política, o exercício da liderança e do poder, ser autoridade são instrumentos maravilhosos e sadios em sua essência. No entanto, sê-lo-ão na medida em que os valores humanizadores e cristãos não são negligenciados.
Ao falar do seu reino, o Divino Mestre afirmou peremptoriamente ante Pilatos: “Meu reino não é deste mundo. (...). Meu reino não é daqui” (Jo 18, 36). Noutras palavras, Jesus não precisa do esplendor dos grandes deste mundo. Sua glória será outra e será quase visível através de seu aniquilamento na cruz.
Efetivamente, Jesus entrou neste mundo direcionando sua vida, seus valores, encaminhando suas ações, assumindo atitudes que estiveram na contra-mão do pensamento comum. Em sua encarnação, Ele que é Deus com o Pai (cf. Jo 1, 1-4), assumiu a pobreza e a precariedade da nossa mísera humanidade fazendo-se carne (cf. Jo 1, 14). Sua experiência de fugitivo político o fez experimentar em tenra idade o que significa ser estrangeiro no Egito (cf. Mt 2, 13-15). Sua vida em Nazaré, cidade insignificante e sem prestígio em Israel (cf. Jo 1, 46), foi sua cidade e lá esteve ao lado de Maria e de José em uma vida frugal, na pobreza de um operário que ganha o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 14). Não fez milagres para tornar sua vida mais fácil! Em sua vida pública, ele não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9, 58) e, ao tentá-lo fazê-lo rei, refugiou-se sozinho na montanha (cf. Jo 6, 15) haja vista não ser esse o critério de realeza a ser assumido por este Rei e Senhor. Em suma, Ele fez milagres para assumir o projeto do Pai, de manifestar o poder do reino, libertar as pessoas, aproximá-las de seu projeto, sem especificamente “facilitar” as coisas ou mesmo resolver “magicamente” os problemas. Enfim, ao fim de sua vida, vilipendiado ao extremo, morreu numa cruz, o mais ignominioso e penoso castigo, (cf. Lc 23,33-46). E mesmo depois de sua gloriosa ressurreição e ascensão quis permanecer em meio a nós sob as humildes espécies de pão e de vinho na Eucaristia (cf. Jo 6) e escondido nos pobres (cf. Mt 25, 31ss).
Isso nos ampara para fundamentar que a religião é apenas uma pálida expressão daquilo que Deus na verdade deve ser para nós. As lideranças religiosas de todos os tempos que se declaram cristãs, devem precaver-se do perigo de estabelecer na religião um pedestal para a glória pessoal, para a prosperidade financeira, para buscar seguranças de toda espécie. Servir-se de Deus ao invés de servir a Deus é paganismo da pior espécie. Religião nunca deve ser pedestal para as próprias projeções ufanistas, mas “genuflexório” da nossa adoração de Deus, e a constante inquietude perante aquele que nos questiona no íntimo de nossas consciências. Ai de quem substitui sua confiança no Senhor pelas garantias de uma religião singelamente acomodada. Ou nos tornamos peregrinos inquietos e itinerantes nesta busca do rosto do Senhor escondido em nós, nos pobres, na Escritura, na história da humanidade ou então, a ausência da busca, a não desinstalação transformará nossa caminhada em ausência do próprio Deus! “(...) aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo” (Mt 20, 26-27).
A Igreja toda é chamada a ir ao presépio, ao calvário, ao sacrário, mergulhar no silêncio e contemplar Deus para, a partir deste olhar sobre Ele, assumir atitudes que sejam respostas, traduzidas em busca que, por sua vez, transfigurar-se-ão no encontro definitivo do alvorecer da eternidade.

Humildade da água do rio




Uma estrada construída na humildade


O que vale mesmo é buscar, insistir, persistir e não desistir.

O rio, que tu vês na imagem, seguindo a ordem normal das leis da física, obedece, se adapta ao terreno e ao relevo onde passa. Se ele encontra a montanha, não sobe a montanha. Se ele encontra o abismo, ele se joga pra baixo. Circundar a montanha, descer o abismo e jogar-se é uma forma de encontrar o seu rumo, de dar sua contribuição vital onde passa. A montanha, o abismo, tudo é razão para descobrir onde ir! Eles não atrapalham, eles são indicadores do percurso. O alvo será atingido, a meta se avizinha!
Imagine só: um rio que sobe a montanha! cruz credo, o povo vai pensar que é bruxaria e os cientístas vão somente dar uma gargalhada. O rio não desce o abismo porque não quer cair e virar cachoeira! bem, vão pensar que você bebeu pinga ou tá de pileque. Não dá!
Mas, teu orgulho tantas vezes te fez recusar dar a volta da montanha. Quais são tuas montanhas? Tua soberba te fez não descer e cair pedras abaixo. Quais são teus declives?

Nossa vida deve seguir o exemplo deste rio. Construir-se e levar vida lá onde passamos. Acolhendo paciente e humildemente as exigências do terreno, marcando-o fortemente com nossa passagem estaremos descobrindo o caminho. Aliás, o caminho surge na medida que damos passos. Como diz o provérbio espanhol: "o caminho é caminhar". Marcar sem angústia, sem agitação, sem medo ou falsos complexos de inferioridade. Marcar o chão onde passamos, sem a soberba da montanha, mas com a perseverança da água, com sua pureza e sua humildade. O caminho nos forma, mas nós formamos o caminho. E seguindo o percurso que encontramos, somos encontrados por aqueles que nos esperam e desaguaremos no mar, em toda a infinidade de sua grandeza.