quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Deus contruirá uma casa para ti!




2Sm 7, 4-17;
Uma promessa a Davi: “Iahweh te diz que ele te fará uma casa” (v. 11). Aqui está o centro deste texto. Com efeito, Deus tomar a iniciativa de construir uma casa para seu eleito, está dando a entender, ou melhor, revelando que a sua graça viabilizará uma morada. Habitação, lugar de moradia está a indicar uma vivência, uma existência, um projeto existencial, um construir-se feito de capacidade de pensar, decidir e fazer opções, sentimentos, sofrimentos e alegrias. Não é algo distante de nós.


Deus quer construir uma casa, a casa da nossa vida e ser ele o engenheiro e mestre de obras. Nosso papel? O servente de pedreiro. Certamente atuaremos, teremos participação ativa, mas enquanto atores coadjuvantes, sendo Ele o ator principal. “Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalharão seus construtores. Se o Senhor não vigiar nossa cidade, em vão vigiarão as sentinelas” (Sl 126[127], 1). O senhorio de Jesus não pode acontecer sem esta disposição interior, esta decisão firme e estável em disponibilizar as rédeas da vida, da construção da história. “A Sabedoria edifica sua casa, a Estultícia a derruba com as mãos”. (Pr 14, 1). Por isso, será Cristo Senhor quem construirá uma casa para o nome de Seu Pai e nosso Deus (cf. v. 13). Claro, o texto refere-se a Salomão, imediatamente, mas em uma amplidão maior de compreensão, diz respeito ao Messias de Iahweh, Filho seu muito amado em quem pôs suas complacências. Este Cristo, como nos diz o texto terá uma realeza estável, firme. Certamente não uma soberania e realeza firmada sobre uma autoridade política ou um domínio de territórios, algo institucionalizado no sentido de um executivo com poder jurisdicional como acontece com os governos da terra. Será uma autoridade, um senhorio interior, feito sob ação da graça, no poder da palavra revelada e acolhida por meio de fé, da sobrenaturalidade da obediência, que porta consigo seus desdobramentos de adesão livre ao querer de Deus. Uma interioridade que certamente se exterioriza em opções, iniciativas, princípios e valores. Eis o Reino de Deus!
“Se ele fizer o mal, castiga-lo-ei com vara de homem e com açoites de homens. Mas minha proteção não se afastará dele, (...)”. Certamente Salomão pecou, em função das más influências das mulheres estrangeiras que tomou como esposas, as quais o induziram à idolatria (cf. 1Rs 11, 1-13). Ora, Cristo não pecou, não fez o mal. Isso é incontestável! Mas Ele assumiu o mal que a humanidade cometeu. Ele carregou as faltas dos pecadores. “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Ou como diz o profeta: “Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado em virtude das nossas iniqüidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas faltas fomos curados” (Is 53, 5). Assim, o sábio edificador da casa de Deus, revelou seu poder magnífico, feito de amor misericordioso, gratuito, puro, santo e santificador. Ele é o servo, o servidor, o pobre, o humilde: Eis as insígnias reais do divino soberano. Somos nós suas casas, sua moradia santa. “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? (...). Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus?... e que, não pertenceis a vós mesmos?” (1Cor 6, 15a.19).


Ensinar-nos-á São João da Cruz: “Está Deus, pois, escondido na alma, e aí o há de buscar com amor o bom contemplativo dizendo: onde é que te escondeste? Eia pois, ó alma formosíssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber o lugar onde está teu Amado, a fim de o buscares e a ele unires! (...). Que mais queres, ó alma, e que mais buscas fora de ti, se tens dentre de ti tuas riquezas, teus deleites, tua satisfação, tua fartura e teu reino, que é teu Amado a quem procuras e desejas? Goza-te e alegra-te em teu interior recolhimento com ele, pois o tens tão próximo. Aí o deseja, aí o adora, e não vás buscá-lo fora de ti, porque te distrairás e cansarás; não o acharás nem gozarás com maior segurança, nem mais depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti. Há somente uma coisa: embora esteja dentro de ti, está escondido. Mas, já é grande coisa saber o lugar onde ele se esconde, para o buscar ali com certeza. É isto o que pedes também aqui, ó alma, quando com afeto de amor, exclamas: Onde é que te escondeste? No entanto – prossegue o doutor místico – dizes: Se está em minha alma, como não o acho nem o sinto? A causa é estar ele escondido, e não te esconderes também para achá-lo e senti-lo. Quando alguém quer achar um objeto escondido, há de penetrar ocultamente até o fundo do esconderijo onde ele está; e quando o encontra, fica também escondido com o objeto oculto. Teu amado Esposo é este tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante deu todas as suas riquezas (Mt 13, 44)” (Cântico Espiritual, Canção I, n.6-8). Paulo, o apóstolo, nos brinda com sua autoridade, dizendo o mesmo que o São João da Cruz: “pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3).


ORAÇÃO: Rogamos, ó divino engenheiro, Tu que és eterno mestre de obras, vem e constrói esta casa de nossas vidas. Não permitas, ó Senhor, que por nossa negligência e por nossa irresponsabilidade a tua casa fique sem reboco ou acabamento, sem as instalações elétricas ou hidráulicas. Tu que assumiste as nossas dores e culpas, Tu que recebes do Pai o Reino eterno, vem em socorro de nossa pobreza e indigência com tua graça. Que ela não nos falte, pois sem ela nada somos e nada fazemos. Nós te suplicamos por ti mesmo, Tu que és Deus com o Pai e o Espírito Santo. Amém.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Capazes de refletir




Diz São Basílio, o grande, bispo e doutor da Igreja do século IV:


"Que palavra poderá verdadeiramente descrever os dons de Deus? São tantos que não se podem enumerar. São de tal grandeza que um só deles bastaria para merecer toda a nossa gratidão para com o Doador. Há um que a nós, seres racionais e inteligentes, seria forçosamente impossível esquecê-lo, e pelo qual jamais o louvaríamos condignamente: Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Honrou-o, assim, com a reflexão. Só ele, dentre todas as criaturas, deu a razão" (Da regra mais longa de São Basílio, PG 31, 914-915).


Somos dotados de liberdade e de consciência, da capacidade de decidir. Mas, tal capacidade vem das possibilidades imensas de pensar, refletir, analisar, ponderar, avaliar. Levar em consideração os prós e contras, tudo isso ajuda muito a construir o projeto bonito que Deus tem no sentido de sermos dotados de imensas possibilidades de escolhas. Não como os irracionais que seguem os instintos, são condicionados por tantas situações do ambiente ou das estimulações, tão somente.


Isso acarreta uma imensa responsabilidade (somos capazes de responder).


Pense, pois você é capaz de pensar e refletir e tire as lições para a sua vida!


Um abraço e bênção do Padre.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Dai-lhes vós mesmos de comer.... (Mc 6, 34-44)



Ante as multidões, semelhantes a ovelhas sem pastor, Jesus delas tem piedade e compaixão. Pessoas abandonadas, entregues à ignorância, negligenciadas por aqueles que lhes deveria fornecer o alimento da verdade e os cuidados pastorais. Um povo que submerge na desorientação. E a atitude do Senhor ante aquela carência é ensinar-lhes muitas coisas. A missão da Igreja será ensinar muitas coisas, irradiar a verdade, soltar-lhe as asas a fim de que ilumine, liberte, promova, salve. A Igreja é mestra, não por ser dona da verdade, mas guardiã desta verdade que recebeu de seu divino Fundador. Não seguirá os modismos, não se sujeitará as alternâncias dos tempos e as conseqüentes flutuações das mentalidades, onde os critérios de certo e de errado, de bem e de mal oscilam fortemente e se adaptam as conveniências momentâneas dos indivíduos e dos grupos sociais, bem como dos sistemas econômicos, das ideologias e interesses políticos os mais diversos. João Paulo II, a esse respeito, afirmou de forma cabal:
Sendo assim, não se trata de inventar um “programa novo”. O programa já existe: é o mesmo de sempre, expresso no Evangelho e na Tradição viva. Concentra-se, em última análise, no próprio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para nele viver a vida trinitária e com ele transformar a história até a sua plenitude na Jerusalém celeste. É um programa que não muda com a variação dos tempos e das culturas, embora se tenha em conta o tempo e a cultura para um diálogo verdadeiro e uma comunicação eficaz. Esse programa de sempre é o nosso programa (...). (NovoMillenioIneuntem, 29).
Ensinar: missão da Igreja que, não pode esconder a luz, mas fazê-la iluminar para que as boas obras promovam o louvor e a glorificação de Deus (cf. Mt 5, 14-16).
O lugar, onde a multiplicação dos pães acontece é deserto e a carência de recursos leva os discípulos a pensar em soluções onde a pobreza dos meios, os isentaria de certas responsabilidades ante as pessoas. É fácil renunciar ao compromisso, deixar de lado o engajamento, não se comprometer. A missão nos transcende, as exigências das urgências nos ultrapassam. Mandar aos povoados parece sempre uma solução mais fácil, razoável, cômoda de modo a desembaraçar do imbróglio. Na contramão desta mentalidade, imbuída de absentismo, o Senhor lança um desafio e tanto: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Noutras palavras, assumam o desafio de ir ao encontro das necessidades destas pessoas e vivam o protagonismo que lhes cabe neste processo. Não fiquem estacionados nos limites, mas enxerguem na presença de Deus, as possibilidades que lhes são concedidas a fim de que a Providência vá ao encontro das pessoas através de vocês. Ante tal imperativo, os discípulos se acham mergulhados em uma mentalidade monetária, calculista: falam em cifras. O verbo comprar não dá lugar ao verbo partilhar! Jesus ao invés, fala em partilha, em comunhão de bens, em generosidade, assinalando com clareza que o pouco com Deus é muito. “Quantos pães tendes? Ide ver”. É preciso verificar sem medo que somos pobres, que nossos recursos nunca são suficientes. “Cinco pães e dois peixes”. Sem comentários! Entretanto, apresentá-los ao Senhor, pedir sua bênção e pô-los à sua disposição haverá sempre de ser um gesto corajoso de fé, fonte de milagrosas surpresas, pois Deus sabe surpreender quem nele confia. Para alimentar as multidões foram dividas em grupos para facilitar a distribuição. Sentados na verde grama, as pessoas lembram as ovelhas que são alimentadas pelo bom pastor que as conduz para os bons pastos de seus cuidados (cf. Sl 23(22), 2). Sentar-se é o gesto dos convidados para um banquete. Realizando um gesto eucarístico de dar graças e pronunciar a bênção, Jesus partiu os pães. Partir é base para o repartir. Para repartir, Jesus se serve da mediação de seus discípulos. Não é para estranhar esta metodologia do Divino Mestre que não cessa de servir-se de tal mediação para conceder seus dons a seu povo. Por isso, não é possível pensar uma caminhada de Igreja sem assumir, com vigoroso espírito de fé, a obediência e visão sobrenatural daqueles que nos conduzem, em nome do Senhor. Haverão de partilhar o pão que receberam das mãos do Mestre. E destas mãos frágeis, seremos alimentados pelo próprio Deus. E o resultado foi surpreendente: “Todos comeram e ficaram satisfeitos”. Claro, sempre haverá saciedade quando se entende que a medida vem de Deus. Ele sabe o que nos dá e o que nos nega. Mas, conta conosco para que seus desígnios salvíficos se cumpram e sua providência alcance a todos os que ele deseja alimentar através de nossa pobre contribuição. Recolheram doze cestos, cheios de pedaços de pão e também dos peixes. Simbólico, emblemático, significativo: doze! Número cósmico das doze tribos e dos doze apóstolos e das doze estrelas da mulher do apocalipse! Indica plenitude. Vai, e também tu, faze o mesmo (Lc 10, 37): Dá-lhe tu mesmo de comer!

ORAÇÃO: Que assim seja: que eu faça o mesmo e me sinta responsável por aqueles que me confias. Colabore contigo e seja feliz, sendo teu sinal, teu canal, teu instrumento. Feliz assim!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O REINO DA VERDADE E O CAMINHO DA LIBERDADE DOS SEGUIDORES DO REI



“És tu o rei dos judeus? Assim perguntou Pilatos a Jesus, após a cruel flagelação no pretório, ao que Jesus replicou com uma pergunta: “Estás dizendo isso por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?” (Jo 18, 33-34). A esta pergunta, vem à tona o anseio que o Senhor tem sobre o sentido a ser dado à sua soberana realeza. Com efeito, ao afirmar-se rei dos judeus, o Divino Redentor nega que é rei aos moldes de uma compreensão meramente humana, haja vista seu reino não ser deste mundo (cf. Jo 18, 36). Mas, com certeza Ele é Rei! (cf. Jo 18, 37). No entanto, o seu reino se realiza porque nele é atuante a verdade: “Quem está a favor da verdade escuta a minha voz”, diz Jesus (Jo 18, 37). Estar do lado da verdade significa acolher a revelação do Pai através do Filho e sob a guia segura de seu Espírito. Não vale a neutralidade. O julgamento que o divino juiz flagelado estabelece diante de Pilatos é de separação; respostas evasivas como a do governador romano (e de todos quantos ficarem em cima do muro) indicam a não-aceitação desta verdade. Longe desta onda de relativismos vagos e amorfos, a verdade revelada é sólida, estável, plena e eterna. E esta, ao encontrar a pessoa, ao vir ao encontro de cada homem e mulher evoca e requer uma experiência pessoal, crescente, provocadora de respostas existenciais concretas e comprometidas. E tal comprometimento não pode vir a não ser de uma experiência com esta verdade. Dirá João Paulo II:

“A verdade da revelação cristã, que se encontra em Jesus de Nazaré, permite a quem quer que seja perceber o “mistério” da própria vida” (Fides et Ratio, n. 15).
Os critérios de liderança, ou de soberania, de poder e autoridade, conforme o pensamento de Jesus, caminham na contramão das mentalidades e procedimentos deste mundo. As pessoas que chegam ao poder correm o sério risco de fazer dele um instrumento egoísta da busca de si mesmo, uma corrida atrás de privilégios, trampolim para uma ascensão sem fim, estrelismo, jogo de influências, auto-projeção, a mania de tirar vantagem das situações e impor-se. A vaidade é uma ilusão mentirosa e se assemelha à fumaça. Será dispersa pelo Vento do Espírito: “Depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1, 52), dirá Maria, a humilde serva do Senhor. Quando as pessoas vivem na verdade, necessariamente são livres e por isso amam. Livres para amar, serão felizes de modo estável, serão felizes efetivamente. A verdade de Deus conduzirá o homem e a mulher à humildade que por sua vez, longe dos complexos de inferioridade ou dos medos infantis, gera um senso de responsabilidade em agir fazendo o melhor uso dos bens recebidos e administrados. Ser humilde é ser consciente de que tudo foi dado e, na condição de administradores, tudo há de devolver Àquele que é o legítimo proprietário de tudo quanto existe. Esta devolução acontecerá no dia da morte. Por conseguinte, a humildade se mede muito pela liberdade em se auto-perceber como existência doada, ser inacabado, imperfeito, em processo, aprendiz e eterno discípulo que nada sabe e quer aprender. Ser humilde significa ser desapegado por manter sob controle o instinto de posse sob a certeza inequívoca da efemeridade de tudo, de todos. Assumir-se peregrino, viajante significa inexoravelmente ter uma meta. Ter a eternidade por alvo não é presunção, mas destino de quem centrou a vida no que é definitivo. Alvo de quem? De todos quantos vivem na verdade. Presunção seria querer alçar o livre vôo da contemplação da verdade com as asas da razão e da fé (cf. FR Introdução) se tal não nos fosse dado por um chamado divino, uma eleição gratuita; Tal iniciativa não é em função de méritos pessoais, mas na força de uma escolha divina: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi e vos destinei para que vades e produzais fruto e o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 16). Na eleição dos discípulos o “Senhor subiu ao monte e chamou quem ele quis” (Mc 3, 13).
Que Reino é esse que é dos pequeninos, dos pobres, dos mansos, dos aflitos por não verem Deus amado, dos que têm fome e sede de santidade, dos perseguidos por causa do Evangelho e da justiça, dos que promovem a paz inquieta e plena? (cf. Mt 5, 1-12). Que Reino é esse que responsabiliza e engaja as pessoas, fazendo-as instrumento de transformação, revolucionárias com as armas da oração, do amor oblativo que se faz serviço e transforma a vida do crente em um discipulado sem fim? (cf. Mt 5, 13-16; 23, 8-12). Eis o Reino que não é deste mundo. Com efeito, as ideologias, as mentalidades egoístas e manipuladoras, doutrinas falsas e opiniões enganosas, propostas sedutoras de uma felicidade construída sobre a areia movediça da facilidade, informações comprometidas com projetos obscuros onde o prazer, o poder e o ter dão as coordenadas da pseudo-segurança fugaz, as falácias e meias-verdades, tudo isso vai gerando fragmentações nos corações humanos. “A visão orgulhosa do homem será humilhada e a soberba dos grandes abatida; naquele dia, somente o Senhor será exaltado” (Is 2, 11).
A verdade: contemplá-la, amá-la, servi-la generosa e fielmente, assimilá-la ao ponto de deixar-se governar por ela, haverá de ser o grande meio para atingir a mais genuína liberdade, e, a partir desta, chegar à felicidade. Escutar a verdade é obedecê-la. Ao lançar-se na escuta, a pessoa de fé se põe em uma postura de acolhida da Palavra que ilumina e conduz, alimenta e faz caminhar. Vale considerar o que São Bernardo ensina: “Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso. Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas” (S. BERNARDO, Sermão 5 In Adventu Domini, 3). Que esta palavra, portanto, nos alimente e vivifique a nós súditos de Sua Divina Majestade.

domingo, 18 de outubro de 2009

servos por amor gratuito!


LECTIO DE 18/out/2009
Mc 20, 35-45

UM PAPO SERÍSSIMO! Segura aí! Não seja covarde, nem medroso e não invente de se esconder. NÃO FUJA! LEIA, REZE, PENSE, DECIDA!
A palavra de hoje nos insere no vértice da vocação cristã. A ambição dos discípulos, direcionada aos cargos ou lugar de honra, ou mesmo afirmando e buscando garantir o triunfo junto do Messias revelam o coração humano e suas megalomanias (as manias de ser grandão, o maioral, o rei da selva - tendências leoninas). Parece este leão que se julga do dono do pedaço, abafando e arrasando!
O que pedis? O que quereis que eu vos faça? Esta pergunta de Jesus é muito séria e muito importante. Ele quer fazer e quer nos atender. Mas, fica o questionamento: qual o conteúdo do nosso querer? Que desejamos? Onde se inclina a nossa vontade? Para onde nos leva o nosso coração? Que que você anda querendo. Palha, lodo, lama, ouro, prata? Sabe distinguir o ouro da prata? a prata do lodo? o lodo da palha? O que é importante? O que é que tem valor? Você sabe? Quais os critérios que você usa?
Ao ouvir a solicitação dos discípulos na linha da grandeza, dos cargos, das facilidades e do triunfalismo, a resposta do Mestre reconduz a compreensão da vitória e da primazia que cada discípulo do Reino deve almejar.
Ele não oferece cargos, nem prestígio, nem honras, nem mesmo o sucesso: ele oferece o cálice da ira o qual deve ser esgotado (cf. Jr 25, 15-29; Is 51, 17). Os dois discípulos entenderão isso: Tiago morrerá mártir de martírio vermelho (será morto por Jesus e pelo Evangelho derramando o próprio sangue cf. At 12, 1-12) e João terá que sofrer por Jesus e no seus escritos deixará um inenarrável testemunho da primazia do amor-caridade-serviço. Isso é algo de enaltético! Só o tchekslovekibite!

Na Bíblia o Peregrino há um comentário belíssimo e eu o transcrevo aqui:
“... a comunidade do Messias rege-se por princípios opostos aos do mundo. Nela, a ambição será substituída pelo espírito de serviço. Não é que o serviço seja meio para conseguir o primeiro lugar, mas que no serviço reside a dignidade. Não em virtude de um oráculo individual (como em Gn 25, 23), nem por uma desordem social (como diz Ecl 9, 6-7), mas por um preceito e pelo exemplo de Jesus (visto como servo de Is 53, 10).
Na menção do cálice e da imersão, o cristão pode ler nas entrelinhas uma alusão ao batismo e à eucaristia como participação na paixão de Cristo (Rm 6, 3-4; 1Cor 11, 26)”

(L. A. SCHöKEL, Bíblia do Peregrino, 2ª ed., S. Paulo, 2006, p. 2426).

Os primeiros lugares no Reino a quem caberá? Meu Deus! Livre-nos o Senhor desta pergunta: é para quem o Senhor quiser. Não nos cabe ambicioná-los. Quem os ambiciona, deles se exclui! Cabe-nos amar, servir, dar a vida. O que vem após isso, bem, não é da nossa conta. Basta que Deus saiba e na liberdade infinita que lhe caracteriza faço o que bem entender.
Alguém disse que o caminho da fidelidade a Deus por medo do inferno é o caminho dos escravos. A busca das recompensas é o caminho dos mercenários. A filiação amorosa e confiante, o serviço generoso e desinteressado é o caminho da união perfeita para com Deus aprofundarão o zelo e o desejo de dar-se servindo. A confiança cristã não se baseia só na cruz, senão a cruz se tornará uma ideologia, monstruosidade. Atrás da cruz está o amor do Pai. É este amor que nos escolheu em Cristo e para Cristo. Nós mesmos, somos, para o Cristo, o dom que o próprio Pai tem reservado ao seu querido Filho. Idéia fantástica e inusitada: Nós o presente do Pai para seu Filho!
Jesus toma a contramão. E tome barruada! Responde às perguntas dos discípulos oferecendo a proposta radical: dar a vida! Fazendo a proposta da pequenez: ser escravo dos irmãos! Fazendo a proposta do amor e da realeza divina: o serviço. Sem minoridade não existe fraternidade.
Nosso Senhor conhece o coração com sua mania de grandezas. O homem é feito para se levantar da sombra e andar erguido, dentro da luz. Mas o coração humano se perverte e usa a grandeza para diminuir o outro, servir-se do outro, explorar o outro. Parece que, somente amarrando o outro na sua insignificância, a pretensa grandeza parece grande. Terrível! Quem faz isso é, aos olhos de Deus, um jeguenow (burro).
Jesus segue na contramão: quem governa as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Como é triste ver que quem foi chamado e eleito ou de algum modo chegou ao poder, ao invés de servir o povo, serve-se do povo. Ao invés de buscar o verdadeiro bem das pessoas, pelo populismo ou pela opressão tirânica, alguns governantes vão ao encontro de interesses que deixam a vida mais cômoda, não buscam o melhor e o mais certo, mas o mais fácil e mais gratificante para o egoísmo humano. E, às vezes, buscam o que é cômodo para si, com a meta de unicamente manter-se no poder. Para manter-se no poder são capazes de tudo. Será que isso existe ainda hoje?
Nosso Mestre aponta o caminho certo para os seus discípulos: o serviço, assim como ser escravos dos irmãos e irmãs. Serviço da verdade, serviço da caridade. O cristão, ao ser comparado ao sal e à luz (cf. Mt 5, 13-16) recebeu de Jesus uma imensa responsabilidade. Agir e ser elemento de transformação. O discípulo de Cristo aceita a desafiante proposta de ser diferente e fazer a diferença. Iluminando e dando sabor, preservando da corrupção a vida cristã é marcada por um dinamismo enorme. Trata-se da dinâmica do compromisso, da força da responsabilidade. Pense num negócio chopanestérico e anaximândrico, panelático e extragótico! Algo supimpa e inoxidável!
A disponibilidade ao serviço do outro é a verdadeira medida da grandeza e precedência na comunidade. Toda função de governo deve estar, exclusivamente a serviço da comunidade. Como Cristo é fonte de Deus em nós, assim nós também, pelo serviço, queremos ser para os outros, fonte de felicidade e confiança. A gratuidade é a lei de Cristo! Quem mais serve os outros sem recompensa, tem semelhança com Cristo. Por isso, quem não vive para servir, não serve para viver. Quem topa qualquer parada, não para em qualquer topada.
Um abraço pra vc filoteu!

sábado, 17 de outubro de 2009

Pobres que valorizam o dom de Deus


Em nenhuma hipótese, se confunda desapego com desprezo. O livro do Gênesis, como vimos, nos mostra o quanto Deus se alegra por ter dado vida a todas as obras da criação e o quanto ele enfatiza a bondade e o valor das obras surgidas de suas mãos. O apóstolo também ensina: «Pois tudo o que Deus criou é bom e nada é desprezível»[1]. «Foi pela fé que compreendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus. Por isso, o mundo visível não tem a sua origem, em coisas manifestadas»[2].
E neste mistério da ação de Deus nos lançamos pela fé nos braços d'Aquele que na sua invisibilidade se deu a conhecer e, mergulhados na nossa finitude, reconhecemos cheios de gratidão a grande obra que o Senhor fez, dando-nos a vida.
Mesmo às apalpadelas, seguramos e mantemos acessas a lâmpada da fé e esperamos vigilantes o seu retorno a exemplo das virgens prudentes[3]. E essa vigilância se consolida e se arma dos meios de uma intensa fé que se defende de toda concepção racionalista ou materialista de um mundo que surge e se desenvolve sem Deus, negando-lhe a existência ou vivendo como se Ele nem existisse, considerando-O um ser distante, um alguém ausente, uma entidade a ser simplesmente ignorada e desprezada.
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[1] 1Tm 4, 4.
[2] Hb 11, 3.
[3] Mt 25, 1-13// Lc 12, 35-38. O tema da vigilância é muito enfatizado por Mt 24, 42-44; Lc 12, 35-40.

Reconhecer o nada




O reconhecimento do nada é a verdade consumada. Isso nos faz caminhar. Há de ser o antídoto poderoso contra certas formas explícitas ou camufladas de orgulho e de soberba, ajudará a pessoa a não viver de ilusões, nem na mentira. As dificuldades serão não somente suportadas, mas também superadas e até amadas com maior facilidade. E isso só acontece no coração humilde, despojado, vazio de si, da própria glória. Por isso, ocorre compreender que «só a humildade tem algum poder. Não a humildade adquirida por raciocínios, mas uma luz clara e verdadeira que num instante capta o que o trabalho da imaginação não alcançaria por muito tempo, acerca do nosso nada absoluto e do bem infinito que é Deus»[1].
Esse nada, por mergulhar a pessoa na verdade, criará um clima de serenidade e de alegria, porque o despojamento livra o coração de tantas preocupações inúteis.
«É humilde, ensina S. João da Cruz, quem se esconde em seu próprio nada e sabe abandonar-se a Deus»[2].
Não existe auto-estima sem um mergulho corajoso na verdade de Deus e na nossa própria verdade. A autopercepção, além de positiva, há de ser verdadeira, fundada na realidade, longe das ilusões fantasiosas e enganosas. Tudo isso fará com que a pessoa tire os olhos das criaturas, no que diz respeito a esperar muito delas, nas suas capacidades e talentos, na santidade ou nas virtudes que possam ter, das vantagens e gratificações que sua amizade possa nos oferecer. Os olhos do que vive na verdade se fixarão em Deus como o único sumo Bem. As pessoas humanas serão vistas na sua verdade e realidade.

Declama com imensa sabedoria a grande doutora, Teresa de Jesus:

«Formosura que excedeis
A toda formosura,
Sem ferir, que dor fazeis!
E quão sem dor desfazeis
O amor pelas criaturas!

Ó laço que assim juntais
Dois seres tão diferentes
Por que é que vos desatais
Se, atado, em gozos trocais
As dores mais pungentes?

Ao que não tem ser, juntais
Com quem é Ser por essência
Sem acabar, acabais;
Sem ter o que amar, amais;
E nos ergueis da indigência
»[3].


Deste modo não haverá possibilidade de se espantar ou se escandalizar com os erros ou fraquezas que o outro venha a manifestar. As decepções serão sobremodo redimensionadas e trabalhadas, se é que existirão. Esperar em Deus significa não esperar em ninguém mais, em nada mais a não ser o próprio Deus.
«A justa "estima" de si mesmo é, portanto esta: reconhecer o nosso nada! Este é o terreno sólido ao qual tende a humildade! A pérola preciosa é precisamente a sincera e pacífica persuasão de que, por nós mesmos, não somos nada, podemos pensar nada, não podemos fazer nada»[4]. Existe, portanto, um Doador e o que recebe agradecido e feliz esta doação. Por amor, administra esta doação no melhor dos modos. Com muita propriedade afirmou um certo autor: «Somente quando me volto para o doador de tudo, com o coração de mendigo que sabe ser imensamente pobre, que sabe não ser mais que puro dom, somente então estou na dimensão que me corresponde»[5].
O nada nunca pode chocar quem vive na verdade. A verdade nos levará a conhecer o Tudo de Deus e, por conseguinte, nós como felizes beneficiados, pois nada somos, nada temos, nada podemos. E essa mentalidade levará a pessoa a viver numa profunda humildade, pois a humildade é a mais consumada verdade. Assim nos ensina S. Teresa de Jesus: «Deus é a suma verdade – e ser humilde é andar na verdade. Grande verdade é que de nada de bom procede de nós, a não ser miséria de ser nada. Quem não entende isso anda na mentira. Quem melhor o entender, mais agradará à suma Verdade, porque anda em sua presença»[6].
A auto percepção positiva de si mesmo deve ajudar a pessoa a se colocar na linha de ter o sentido das próprias limitações e criar no homem a disposição para a aceitação realista de si mesma. Essa disposição de ânimo, que se traduz numa sadia humildade e na simplicidade autêntica, vai levando a pessoa a encarar o outro e Deus de modo muito maduro e evangélico. O outro é acolhido e respeitado como um tu que é diferente, talvez mais aquinhoado do que eu e, isso nunca será razão para invejas, ciúmes, desconfianças e perseguições. Ao contrário, será algo como que se alegrar, a ser considerado positivo. A pessoa madura não se compara e se perceber no outro predicados e virtudes que ela não tem, isso não a ameaça, pois ela se aceita e não quererá ser o outro, alegra-se, conserva a paz na serenidade e se esforça para construi-se enquanto pessoa: ser único e irrepetível. O homem que se aceita, outrossim, se percebe e se acolhe a si mesmo como um ser limitado, coloca-se em justa dependência de Deus e em correspondente sentimento de segurança e confiança[7]. Será um alguém que entendeu bem o sentido de ter vindo do pó da terra[8]. Conhecerá a sua criaturalidade e sua contingência. Não viverá de ilusões e no engano do orgulho. Será humilde, será feliz.
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[1] S. TERESA, Caminho, c. 32, n.12. Os grifos são meus.
[2] S. JOÃO DA CRUZ, Ditos de Luz e Amor, n. 173 in P. SCIADINI (org.), Obras Completas, Vozes/Carmelo Descalço do Brasil, Petrópolis, 20006.
[3] SANTA TERESA, carta 165 in P. SCIADINI (org), Obras Completas, ed. Carmelitanas/Loyola, S. Paulo, 1995 . A santa escreve este poema em uma carta dirigida a seu irmão, D. Lourenço de Cepeda.
[4] R. CANTALAMESSA, A vida sob o senhorio de Cristo, Loyola, 19964, p., 194.
[5] CABRA, Amarás com todas as forças, 11.
[6] S. TERESA DE JESUS, Castelo interior ou moradas, VIas moradas, c. 10, n. 7.
[7] Cf. D. CASERA, Psicologia e aconselhamento pastoral, Paulinas, S. Paulo, 1985, p. 61.
[8] Cf. Gn 2, 7.