terça-feira, 14 de dezembro de 2010

6º E 9º MANDAMENTOS

:“NÃO PECAR CONTRA A CASTIDADE”
“NÃO COBIÇAR MULHER DO PRÓXIMO”


• ESSES MANDAMENTOS ORIENTAM A CONSCIÊNCIA PARA A CASTIDADE


• CASTIDADE: VIRTUDE QUE INTEGRA CORRETAMENTE A SEXUALIDADE NA PESSOA E GERA UNIDADE INTERIOR.

• PROMOVE UMA AUTÊNTICA DOAÇÃO ENTRE AS PESSOAS.

• MEIOS PARA VIVER:

• AUTO-CONHECIMENTO (conhecer o próprio corpo, a própria estrutura psicológica, as próprias fraquezas)

• DISCIPLINA PESSOAL E DOMÍNIO DE SI (para gerar equilíbrio e sadia gestão dos próprios afetos e impulsos sexuais)

• A ORAÇÃO (A castidade é um dom a ser pedido a Deus)

• O PUDOR: orienta olhares, gestos, evita conversas impróprias, bem como roupas inadequadas.

• O prazer sexual

• Está ordenado =>

• à procriação

• e união dos esposos

POR ISSO: A BUSCA DO PRAZER SEXUAL FORA DO MATRIMÔNIO É ILÍCITO.

• PECADOS QUE FEREM A CASTIDADE:

– MASTURBAÇÃO (prazer venéreo obtido pela excitação voluntária dos órgãos genitais)

– FORNICAÇÃO: (uniões sexuais antes do matrimônio)

– PORNOGRAFIA: (assistir, ver ou ler conteúdos que visem uma mera excitação e prazer sexual)

– ESTUPRO: (uso de violência nas relações sexuais)

– ADULTÉRIO (manter contatos afetivo-sexuais com outras pessoas que não sejam o próprio cônjuge ou manter tal contato com pessoas casadas).

• “... Todo aquele que olhar para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela no seu coração. Caso teu olho te leve a pecar, arranca-o e lança-o fora de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo seja lançado no inferno. Caso a tua mão direita te leve a pecar, corta-a e lança-a para longe de ti, pois é preferível que se perca um dos teus membros do que todo o teu corpo vá para o inferno” (Mt 5, 27ss)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

5º MANDAMENTO “NÃO MATARÁS” (Ex 20, 13)


Só Deus é dono e tem poderes absolutos sobre a vida (desde sua concepção até o seu final)


A ninguém é permitido interromper a vida em seu desenvolvimento e ciclo natural

No caso de legítima defesa (recurso extremo para defender a própria vida é direito e dever, especialmente os responsáveis pelos outros).

Os assassinos e colaboradores do assassinato realizam um pecado grave.


Aborto (interrupção da gravidez em qualquer etapa de seu desdobramento)

Eutanásia (processo de interrupção da vida em estado de pessoas doentes, deficientes ou moribundas).

A interrupção de procedimentos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados esperados pode ser legítima.

O suicídio (interrupção da própria vida)


É ilícito e imoral produzir embriões humanos destinados a serem explorados como material biológico disponível;

Tentativas de intervenção sobre o patrimônio cromossômico ou genético são contrárias à dignidade humana.

ESCÂNDALO: atitude ou comportamento que leva o outro a praticar o mal.


Quem provoca o escândalo torna-se tentador do próximo.

Passa a ser falta grave se por omissão ou por ação levar o outro a também cometer uma falta grave.

É bastante grave quando realizado por um educador, uma autoridade e formador de opinião.

Também tal escândalo pode ser provocado:


Pela lei

Pelas instituições

Pela moda

Pela opinião

O cuidado da saúde: exige dos cidadãos e dos governantes oferecer a todos condições para obter:


Alimento

Vestuário

Moradia

Saúde

Educação

Emprego

Assistência social

São condenados:


O culto ao corpo

O abuso da comida, do álcool, do fumo e dos medicamentos.


O USO DE DROGAS É FALTA GRAVE E A PRODUÇÃO E TRÁFICO SÃO PRÁTICAS ESCANDALOSAS

SÃO TAMBÉM CONDENADOS:


Terrorismo

Tortura

Sequestro

A cólera (desejo de vingança)

O ódio (raiva ou rancor deliberado e alimento, de modo a desejar o mal do próximo)

A guerra só é lícita quando estão em jogo as obrigações pela defesa nacional;


Sempre será o último e extremo recurso a ser usado
 
“Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘não matarás’; aquele que se encolerizar com seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão Cretino! estará sujeito ao julgamento do Sinédrio e aquele que lhe chamar Louco terá de responder no fogo do inferno” (Mt 5, 21-24)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Por uma paidéia democrática!


O tema da educação e pedagogia gregas constitui uma vitrine de notável importância para captar a visão humana e humanista que marcou a cultura grega. Berço das primeiras grandes conquistas do pensamento e das lapidares sínteses filosóficas, a Grécia teve produções geniais no campo da literatura e das artes. Por isso, tornou-se berço da cultura do mundo ocidental e da nossa sociedade. A valorização da pessoa humana e sua dignidade como também de sua liberdade foi fundamento da cultura grega. Tal está em contraste com as idéias das grandes civilizações antigas onde as pessoas individualmente eram mortificadas e usadas como elemento construtivo das pirâmides sociais, o que culmina no absolutismo de quem detém o poder. Prevalece aqui a classe guerreira. Também são influentes os escribas e detentores da cultura, bem como os funcionários daquela estrutura político-social na qual se enquadra a instrução.



Na cultura grega, nasce o ideal de formação do cidadão da pólis. Eis o ideal educativo expresso com a palavra Paideia. Entre seus pontos mais importantes cabe destacar:


1. Um grande senso do valor do homem: compreeendido em todas as energias e de todos os dotes da natureza humana, não tomados em abstrato, mas em concreto no indivíduo. Valor no senso de valentia, excelência, superioridade. Expresso tal valor compreensivamente pelo termo grego areté, traduzido aproximativamente como "virtude".

2. Disso resulta uma grande abertura a todos os valores humanos: desde os valores físicos (celebrados através das competições pan-helênicas e olimpíadas, perpetuadas pelos poetas e pelo pincel dos artistas), até os da inteligência (levados ao máximo nas escolas filosóficas e nas produções de arte) até aqueles da vontade e da liberdade (expressos na vida civil nas democráticas assembléias dos agorás e nas participações dos cidadãos das cidades-estado livres). Os agorás eram lugares onde os cidadãos se reuniam para falar livremente de seus problemas e dizer sem medo o que pensam, claro, sempre comprometidos com o bem comum. Aqui estamos diante de uma educação eminentemente humanista (pela tendência à formação de um homem ideal) e liberal (pela cordial aversão e prático descurar das atividades operosas e das formas de vida que eram consideradas indignas de um livre cidadão grego e digna somente dos escravos).

A paidéia era pois, a projeção sobre formação do cidadão onde a harmonia visava a fusão harmônica do belo e do bom. O belo da perfeição física e o bom entendido como resultante das mais variadas habilidades humanas de sabedoria, prudência, de cultura, de capacidade política. Com a democracia ateniense vem à baila um conceito de areté fundada na igualdade de todos perante a lei (isonomia) e o reconhecimento do papel decisivo das leis na educação cívica.

Sócrates (469-399 a.C.) educador da juventude, restabeleceu a confiança na validade objetiva da razão, através da descoberta do "conceito" que superando a subjetividade e os limites da sensibilidade colhe o que no conhecimento é universal e, portanto, objetivamente válido. Valores humanos tornam-se a base segura da educação. A orientação moral visa o fim do homem, a saber, a felicidade. E para atingi-la, ocorre percorrer um ordenamento virtuoso, inseparável com o reto conhecimento. A maieutica socrática, essencialmente dialógica, é marcada pelo ativismo didático e educativo. A educação constitui um processo interior. Platão (428-348 a.C.) apresenta a idéia como a fundação objetiva dos valores, mas continua a austera linha pedagógica, tanto do ponto de vista intelectivo (a contemplação filosófica da verdade) quanto do ponto de vista ético. Destaca-se a ascese, da separação do mundo das sombras para viver a reconquista das idéias como elemento fundamental da educação. Para ele, a virtude cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança são fundamentais para o equilíbrio dos apetites. Destaque seja dado, no pensamento do filósofo, a figura dos filósofos-governantes enquanto educadores do povo. Chega-se, assim, à concepção do estado-educador e da educação como rigorosa função do estado. Algumas dimensões da educação em Platão merecem destaque, a saber: a dimensão do éros-educativo cuja metodologia é o amor que une educador-educando na gradual subida rumo ao "Bem" sumo. Aristóteles (384-322 a.C.) diz que o escopo da pedagogia e da educação é a felicidade. Esta constitui um harmonioso desenvolvimento e perfeição de todas as potencialidades à luz da racionalidade.

A história da pedagogia trás uma contribuição bastante válida, a meu ver, para que se colha a visão de homem que está por trás de toda uma ação educativa. Dos gregos, colheremos este ideal do homem livre, com direitos e deveres, capaz de participar ativamente da vida pública de uma maneira consciente e democrática. Escolher destinos, debater idéias, ser protagonista, ator e construtor no processo de fazer a polis acontecer: eis a paidéia democrática! Não um mero expectador passivo. E no substrato desta conquista titânica de alta envergadura política está, com certeza, a visão de pessoa humana que se articulou e difundiu na educação. Quando a ação educativa é cerceada ou mergulha em restrições ideológicas, ou quando certos populismos messiânicos tendem a domesticar os cidadãos ignaros em currais ou em circos onde imperam festas e esmolas, então não teremos liberdade em chave de democracia marcadamente participativa e consciente. É preciso multiplicar os agorás enquanto espaços de discussão dos problemas, de busca de solução, numa vivência participativa e operosa da política. Com efeito, política não se reduz ao que se discute ou se decide, se voto ou se executa no poder executivo ou legislativo. Os gestores públicos e os representantes do povo exercem em nome do povo o poder, mas todos são responsáveis com o bem de todos, ou seja, o bem comum. Se a escolha consciente pelo voto, de tais políticos faz da democracia um meio idôneo para o exercício do poder, então há que se ter presente a idoneidade moral e a capacidade adequada para o exercício de tais mandatos.

Não só nos períodos eleitorais, mas continuamente é preciso fazer acontecer e acionar os agorás. Sugere-se, pois, que uma educação focada na formação para a liberdade responsável, a partir de valores cívicos consolidados; tal foi o quinhão a nós transmitido pela cultura helênica. Cabe não deixá-lo esvair-se, a fim de que a política seja uma verdadeira busca do bem comum, sem imiscuir-se em tétricas falências éticas que só geram atraso e corrupção. A pessoa humana foi chamada a ser feliz. Os gregos visavam fortemente essa meta. E na liberdade, alicerçada e substanciada na verdade, a felicidade não faltará para juntar-se às suas inseparáveis companheiras. Com certeza, ao se falar de política como se viu acima, o bem comum é ponto de chegada, onde as instituições são ponto de passagem. Bem comum, onde o estado é educador por facilitar e animar não só o cultivo da prosperidade e do desenvolvimento sustentável, a partir do trabalho, cuidado com meio ambiente e incentivo da produção, bem como a distribuição o mais razoável quanto possível, de tais bens. Além disso, é também o educador, o incentivador e protetor das liberdades e direitos inalienáveis de todos e de cada indivíduo. Cabe ao estado ser guardião zeloso da vida desde sua concepção até o seu ocaso natural, da dignidade da família, da sociedade, da própria política, a liberdade de expressão e de culto religioso, bem como de convicções pessoais, desde que não atente aos princípios acima referidos, da justiça social e das condições de vida plena para todos. Há que se insistir nesse projeto político onde não haja mais espaço para figuras reconhecidamente incompetentes ou marcadas pelo descaso para com os princípios da ética na política e na gestão dos recursos públicos. Urge se precaver das pessoas que vivem uma ética oportunista em seus discursos de tempos de campanha. Jesus lembrou da necessidade de não se enganar com lobos fantasiados de ovelhas, em suma, importa buscar e fazer acontecer a paideia democrática!. Parece um sonho impossível? Será uma quimera? Uma utopia distante, da qual só nos resta rir ou abanar a cabeça dela desistindo? Quanto mais valores e sonhos são taxados como inatingíveis, mais inatingíveis eles se tornam, não em si mesmos mas para quem deles desistiu E por ter entregue os pontos, tal desistente ficou no meio do caminho, perdeu o trem da história e quem sabe, por sua atitude culposamente resignada, será lançado no lixo dessa mesma história que não quis ou teve medo de edificar.



Pe. Marcos Chagas.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Política: um tempo de reflexão e escolhas!


Vive-se um tempo marcado por um grande evento: as eleições. Com efeito, é um tempo importante, decisivo, capaz de colocar representantes do povo e governantes os quais prestarão o serviço da autoridade (esperemos que não seja um uso irresponsável do poder). Falo de autoridade pois a palavra quer dizer: Auctoritas: "aquele que faz o outro crescer"

Várias coisas preocupam: as idéias, os oportunismos eleitoreiros, a corrupção, as mentalidades, o jogo de interesses, os contra-valores. Alguns bispos têm alertado a respeito do risco de termos novos Herodes, abrindo brechas para que inúmeros inocentes sejam cruelmente assassinados. Além disso, a corrupção, as pressões e opressões tendem a aviltar o jogo democrático. A festa democrática não deve descambar em um velório democrático.
Preocupa também os novos eleitos para o congresso: o palhaço Tiririca (será que sabe ler e entende o que leu?), gente de má índole (fichas sujas ou notoriamente envolvidos em corrupção) e outros sem competência, além de gente que nega fatos consumados, comprovados ou vivem contradições grosseiras, na patética tentativa de negar evidências. É preocupante que haja políticos exageradamente incomodados com a liberdade de imprensa ou desgostosos em ouvir qualquer pensamento ou posicionamento diferente ou dissonante do seu. Se tem eleitor que é alienado (não acompanha a política, não analisa o histórico dos candidatos ou vota usando critérios tolos e infantis ou marcados pela maldade mesmo), por outro tem muito eleitor corrupto (vende o voto por dinheiro e outros favores). Isso trava as possibilidades de crescimento e avanços efetivos de um país. Não somente em termos de PIB ou mesmo de distribuição de renda, mas também em termos de ética, de respeito pelo verdadeiro bem comum, pela justiça e honestidade, retidão e transparência. Entre os políticos parece que quem não entra no jogo da corrupção, da compra de votos através de favores e agrados, não tem vez para ganhar uma eleição. É como se não houvesse espaço para gente séria, do bem, com boas intenções e devida competência para honrar o parlamento e o executivo, engajados na busca do bem de todos e não só de uma curriola. É alarmante a hipocrisia e a mudança de opinião em função das conveniências eleitoreiras.
Os rumos do país estarão nas mãos da pessoa que será eleita para estar à frente do executivo nacional, no segundo turno destas eleições. Os debates se acirram; contrapõem-se as idéias, os projetos, a história e os valores dos candidatos. Precisamos pensar, avaliar e escolher com seriedade. O Brasil, pátria amada e mãe gentil, precisa de pessoas comprometidas com o bem comum para fazer desta nação uma grande família, onde o progresso e a prosperidade aconteçam com o respeito à liberdade de expressão, bem como na defesa férrea dos direitos inalienáveis de todos os homens e mulheres, cidadãos e cidadãs desta terra de santa cruz

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Abraça Jesus crucificado, amante e amado


Caro filoteu, amigo de Deus. Deixo-te com estas palavras profundas, sublimes, carregadas da sabedoria da cruz e da inteligência da fé, exortações incomparáveis de Catarina, essa amiga apaixonada do Senhor, alma esposa do mais alto gabarito, crucificada com Cristo e com Ele transfigurada em santidade.

Título da carta: Abraça Jesus crucificado, amante e amado
“Querida irmã em Jesus,

Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no Seu precioso sangue, desejosa de que te alimentes do amor de Deus e de que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de facto, pode viver sem este leite!
Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus: ‘Deus é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele’. Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!
É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres. Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos colocarem em má situação, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe, assim nós, enamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as Suas pegadas e caminhando com Ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias. Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz.
Abraça, Jesus Crucificado, portanto; elevando a Ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o Seu amor ardente por ti, amor que O levou a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!
Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque Ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!
Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo Seu inefável amor. Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!
Corre e não estejas a dormir, porque o tempo passa e não espera nem um momento!
Permanece no doce amor de Deus.

Doce Jesus, amor Jesus.»

(Santa Catarina de Sena, "Cartas", carta 165)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A TRAMA E O DRAMA DA HISTÓRIA HUMANA SOB A GUIA DA PROVIDÊNCIA DE DEUS NO PENSAMENTO DE SANTO AGOSTINHO.


Cidade de Deus. A monumental obra de Agostinho, desdobrada em vinte e dois livros, é uma profunda reflexão sobre a vida, a história, o sofrimento e o sentido da vida. O autor empregou treze anos para redigir tal obra que ele considerara imensa e árdua. Havia passado um século que os cristãos passaram a gozar da liberdade para cultuar o Deus revelado por Jesus Cristo e destronara pouco a pouco o paganismo e seus deuses.

Agostinho faz uma reflexão mais atenta da história e não permite a si, nem a outrem, leituras superficiais. Com efeito, ele não se limita às convulsões sangrentas da invasão dos bárbaros. O horizonte se amplia, para que se perceba o fio condutor da história universal. Os godos de Alarico, com seus cavalos vindos do norte, transformam a cidade eterna em uma fogueira cuja fumaça se inala em todo o império, gerando consternação e pasmo. Entretanto, tudo isso não passa de minúsculo episódio da luta permanente, cujos combatentes são a Cidade de Deus e a Cidade Terrestre. “Para ele, tanto as civilizações como os Estados envelhecem e morrem. O importante é escrever de modo cristão nas linhas tortas da história humana” (HAMANN, 1989, p. 288-289). Com efeito, aos conflitos internos, eram adicionados os acontecimentos da Itália e de Roma que se refletiam sobre a cidade. Os cristãos viviam uma perplexidade desconcertante oriunda das recriminações dos pagãos, e isto, não poucas vezes lhes era mais penoso para enfrentar que a própria ruína da sede do império. Com oportuna sensatez a contra-argumentação não se faz esperar: “Abri as portas de todas as guerras, quer anteriores à fundação de Roma, quer posteriores a seu nascimento e à organização de seu império, lede-as e mostrai-nos estrangeiros, inimigos, senhores de cidades conquistadas, que tenham poupado aqueles que sabiam estar refugiados nos templos de suas divindades, mostrai-nos algum chefe bárbaro que, em cidade por ele forçada, haja ordenado se poupasse toda pessoa surpreendida neste ou naquele templo” (AGOSTINHO, 1989, p. 29).

Em novembro de 410, vive-se, no norte da África, o tempo da colheita das azeitonas. E Agostinho, a exemplo de Cristo, qual competente mistagogo , serve-se da vida cotidiana do povo para instruí-lo a respeito dos sublimes mistérios, entre os quais o mistério da cruz, eterna fonte de ressurreição. Segundo o doutor da graça e da providência de Deus na história, benefícios e calamidades estão misturados. Colher os primeiros significa também colher as segundas. O mundo, então, assemelha-se à prensa em ação, onde as azeitonas colhidas e depois de esmagadas tornar-se-ão ou azeite dourado, preciosamente recolhido ou bagaço que escorre para o esgoto. Os cristãos deverão estar atentos a estas lições (AGOSTINHO apud HAMANN, 1989). Ante os dramas vividos e as perplexidades que enfraqueciam os corações mais débeis em busca de uma leitura de fé a respeito do desabamento das seguranças humanas, no que tange a tais escolhos, o bispo assim se expressa aos seus fiéis: “O mundo está transtornado como se estivesse numa prensa. Coragem, cristãos, sementes de eternidade, peregrinos neste mundo, a caminho do céu! As provações que se multiplicam são o destino dos tempos cristãos, mas não constituem um escândalo para o cristão. Se amas este mundo, blasfemarás contra Cristo. E é isso o que te sopra o teu amigo, o teu conselheiro. Mas não deves escutá-lo. Se este mundo está sendo destruído, diz a ele que Cristo o previu” (AGOSTINHO, apud HAMANN, 1989, p. 274).

Ainda na condição de peregrinos, os cristãos não se devem considerar alheios ao que acontece na terra, haja vista que a cidade celeste não está apenas na bem-aventurança eterna. Cabe aos discípulos de Cristo lutar para que a Cidade de Deus cresça na terra, avançando sobre o terreno da Cidade Terrestre. Começa neste mundo e cabe-lhes construí-la, sem seu primeiro estágio. “Com alicerces provisórios, o arquiteto do universo constrói a cidade permanente, em direção à qual nos pede que direcionemos nossos passos” (AGOSTINHO apud HAMANN, 1989, p. 308). Ademais, o incessante e luminoso objetivo do cristão, na terra, será o de guardar sua identidade de peregrino da Cidade de Deus Algo de grande importância em tal reflexão é a linha divisória das duas cidades a qual é invisível, haja vista estar no coração de cada homem e mulher. “Se quiseres saber qual é a cidade e a que chefe obedeces, escruta teu coração e examina teu amor” (AGOSTINHO apud HAMANN, 1984, p. 306-307). Vem à baila, a partir dessa verificação interior, um drama que o coração agostiniano sofrerá penosa e ardorosamente: a divisão fragmentadora, a inquietude e anseio por esta unidade interior, sofridamente perseguida e nem sempre obtida: “Nosso coração está dividido. Quem semeou esta guerra em mim?” (Ib.). Na seqüência, a evocação do campo de batalha nos remete ainda outra vez para o coração humano: “A fronteira entre Cristo e o mal passa pelo interior de nós mesmos, entre nossa alma cristã e nossa alma pagã” (Ib.). Arrematando tal consideração, o bispo hiponense afirma a invisibilidade de tal fronteira: “É uma fronteira invisível para qualquer um além de Deus, que escruta os corações e as entranhas dos homens” (Ib.). Este filósofo cristão da história humana a interpreta à luz dos dois amores que se digladiam pelo coração humano, a fim de levá-los a ser construtores de cidades de alicerces, estruturas, consistências e finalidades antagônicos e opostos: “Dois amores, pois, duas cidades, a saber; o amor próprio levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Gloria-se a primeira em si mesma e a segunda em Deus, porque aquela busca a glória dos homens e esta tem por máxima glória a Deus, testemunha de sua consciência” (AGOSTINHO, 1990, p. 169).

Agostinho faz uma leitura esperançosa da história humana. Esta terá o seu ocaso com o Dia do Senhor, que será o dia oitavo, uma domingo sem fim, consagrado à ressurreição de Cristo onde terá se desdobrará o repouso eterno. Para isso, ocorre que o homem viva e cumpra sua essência, não mais na cupiditas, isto é voltado para si e para as coisas do mundo. Há que viver a cháritas, voltado para Deus e amando as criaturas em função de Deus. Os bens finitos hão de ser usados como meios e não devem ser desfrutados ou cobiçados como se fossem fins (REALE-ANTISERI, 2007). A mística da Cidade de Deus o requer!

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:

AGOSTINHO, Santo, A Cidade de Deus, parte I, 11ª edição, Petrópolis, Vozes, 1989.

-, A Cidade de Deus, parte II, 2ª edição, Petrópolis, Vozes, 1990.

HAMANN, A., Santo Agostinho e seu tempo, S. Paulo: Paulinas, 1989

REALE G.-ANTISERI, D., História da Filosofia. Patrística e Escolástica, vol. 2, 3ªed., S. Paulo: Paulus, 2007.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O pobre Lázaro: uma história....


As exigências da justiça social no Evangelho: o exemplo de Lázaro, o pobre.




«havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e cada dia se banqueteava com requinte. Um pobre, chamado Lázaro, jazia à sua porta, coberto de úlceras. Desejava saciar-se do que caía da mesa do rico... e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado.


Na mansão dos mortos, em meio a tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro em seu seio. Então exclamou: “Pai Abraão tem piedade de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo para me refrescar a língua, pois estou torturado nesta chama”. Abraão respondeu: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante tua vida, e Lázaro por sua vez os males; agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E além do mais, entre nós e vós existe um grande abismo, a fim de que aqueles que quiserem passar daqui para junto de vós não o possam, nem tampouco atravessem de lá até nós”.


Ele replicou; “Pai, eu te suplico, envia então Lázaro até à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que leve a eles seu testemunho, para que não venham eles também para este lugar de tormento”.


Abraão, porém respondeu: “Eles têm Moisés e os Profetas: que os ouçam”. Disse-lhe ele: “Não, pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for procurá-los, eles se arrependerão”. Mas Abraão lhe disse: “Se não escutam nem a Moisés nem aos Profetas, mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão»[1].



Este texto, todo transcrito nesta postagem tem como objetivo mostrar a responsabilidade e o compromisso dos cristãos, especialmente os que possuem mais recursos, neste processo de administrar os bens de Deus. Todo este capítulo 16 de Lucas é uma inteira catequese sobre o uso das riquezas. Trata-se de uma parábola proposta de considerar a condição presente à luz da eternidade.

O homem rico que usava mal dos seus recursos materiais, porque o seu egoísmo profundo o centralizava em si mesmo, nas próprias comodidades e nos próprios caprichos é um ensino forte, exigente, comprometedor. Como se percebe, é um alguém sem nome, um anônimo nesta história de salvação uma vez que no seu egoísmo, ele se excluiu da salvação de Deus. Este rico é imagem de um alguém despersonalizado, em vista de sua existência falida, esterilizada, tornado infrutífero pela sua centralização em si mesmo. Não pensar nos outros necessariamente significa ignorar o próprio Deus, Ele que é uma comunidade, a plena comunhão, a partilha, diversidade e unidade no seu mistério trinitário. O eu se descobre relacionando-se com um tu, para formar um nós. Quem não se relaciona não ama e quem não ama não pode descobrir-se. O rico ficou conhecido como epulão, isto é, banqueteador, um comilão. Como dizia Paulo, «seu fim é a destruição, seu deus é o ventre, sua glória está no que é vergonhoso, e seus pensamentos no que está sobre a terra»[2]. Jesus tira o pobre do anonimato: ele tem um nome, ele é alguém, seu nome é Lázaro que significa “Deus ajuda”. Fome e doença o fazem prostrar-se diante da porta do rico, esperando de matar a fome de tudo que cai na mesa do rico, esperando de matar a fome de tudo que cai da mesa farta do abastado egoísta. Até mesmo o cachorro tem piedade de Lázaro e o rico não percebe, é negligente.

Esta parábola nos oferece um quadro feito de imagens muito sugestivas, simples, de tonalidades fortes, sem detalhes ou refinamentos literários. É por isso que nos obriga a buscar sinceramente o essencial. De fato, no tempo o homem decide o seu destino eterno, vida ou morte, e não existe outra possibilidade de opções. Quem confia em si mesmo e em uma felicidade egoísta, construída com as próprias mãos, entra nas trevas e desde já é um cego, ao ponto de não ver o mendigo sentado à porta de casa.

O silêncio do pobre mendigo parece ser o traço característico do vulto de Lázaro. Duramente provado pela vida, descuidado por aqueles que poderiam ajudá-lo, ele se cala. Nenhuma palavra contra Deus ou contra os homens. Nem rebelião, nem críticas, nem inveja. A morte chega para Lázaro como uma libertação. O sono que desfecha o percurso terreno se apresenta como um divisor de águas implacável, determinante e sob a luz inatacável da verdade que brota de Deus cada qual segue o seu infalível destino eterno. Cada um colherá o que plantou.

Jesus retira o véu e nos introduz na eternidade mostrando-nos o grande banquete da eternidade. Lázaro é um dos destacados comensais. É como diz a Escritura: «Levanta do pó o fraco e do monturo o indigente, para os fazer sentarem-se entre os nobres e colocá-los num lugar de honra»[3]. Oposta é a sorte do rico que entre os tormentos infernais vê o pobre do outrora e ousa pedir auxílio para sua inexorável pena. O ardor lhe devora o paladar, o mesmo paladar que antes de deleitava em finas iguarias. As opções da vida presente selam de maneira definitiva a imutável as condições da vida eterna. Por isso, como o apóstolo Paulo, o cristão pensa e vive em função da eternidade: «Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos ansiosamente como Salvador o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará o nosso corpo humilhado, conformando-o ao seu corpo glorioso, pela força que lhe dá poder de submeter a si todas as coisas»[4].

Nem mesmo um milagre como a ressurreição de um morto – diz Jesus fazendo alusão a si mesmo – poderia aliviar o endurecimento do coração de quem incessantemente se recusa a escutar e levar à sério o que dizem as Escrituras. Quem converte e salva não são necessariamente os prodígios (até a ressurreição de Lázaro[5], da filha de um chefe[6], do filho da viúva[7] e do próprio Senhor[8]) não foram suficientes para convencer as pessoas fechadas e de coração duro. Sobre estas dificuldades da aceitação das óbvias evidências da ressurreição do Senhor por parte das lideranças religiosas do tempo de Jesus, se percebe o quanto essa verdade é grande. Eles tiveram uma ótima oportunidade de tornarem-se testemunhas da ressurreição de Jesus e permaneceram expectadores que preferiram vantagens materiais, prestígio e acomodação. Caminharam na mentira. Por isso, nem a ressurreição do Senhor para estes conseguiu mudar os rumos de uma opção direcionada por um coração endurecido. Somente um encontro silencioso, humilde, orante e meditativo, reflexivo e contemplativo com a Palavra de Deus. Um encontro que leve a pessoa a se dispor a viver e transbordar o mistério contemplado, somente isso poderá levar a uma transformação consistente de quem necessita de encontrar-se com o perdão e a graça revigoradora de Deus. São Luís Gonzaga, outrora nobre, fez-se religioso; ele reflete com muita sabedoria e precisão sobre esta realidade: «Não devemos blasonar por causa do nosso nascimento, porque no fim da vida as cinzas de um príncipe não se distinguem das de um pobre qualquer!

Quem mais alto está por destino do nascimento, pela riqueza de bens, pela elevação da cultura e do engenho, tanto mais deve prestar contas a Deus dos seus atos e da sua vida.

Quanto menor do que os outros o homem se fizer, tanto maior será, porque quanto mais alguém é humilde, tanto mais semelhante é e chegado a Cristo, o qual será acima de todos»[9]. Nesta mesma linha S. Gregório Magno ensina: «Que cada um seja juiz equilibrado entre si e os pobres. Que uma comiseração alegre e segura descarte qualquer falta de confiança; e aquele que ajuda ao indigente compreenda que está dando a Deus a esmola que distribui»[10].

Comenta o doutor místico: «Os sabores que deliciam o paladar ocasionam diretamente gula e embriaguez, cólera e discórdia, falta de caridade para com o próximo e os pobres, como teve para com Lázaro aquele mau rico, que se banqueteava cada dia esplendidamente (Lc 16, 19). Daí nascem ainda as indisposições corporais, as doenças, e também os movimentos desregrados, porque se aumentam os incentivos da luxúria. Por sua vez, fica o espírito como submerso em grande torpor; o desejo e o gosto dos bens espirituais diminui de tal sorte que já não os pode suportar, nem mesmo se deter ou se ocupar neles. Esse gozo produz ainda o descontentamento de muitas coisas, distração dos demais sentidos e do coração»[11].Lázaro é acolhido pelos anjos do céu e Deus quer que os Lázaros de hoje sejam acolhidos pelos anjos da terra que são os cristãos os quais como mensageiros do Senhor devem assumir a realidade forte e exigente que somente a fé permite de enxergar: Lázaro é Jesus, o Cristo, disfarçado. Se lermos atentamente o texto de Mateus a respeito do juízo universal poderemos nos convencer disso[12]. Com efeito, uma figura sobrenatural emana da figura de Lázaro: é Jesus o qual não considerou um tesouro imperdível a sua natureza divina, mas se fez pobre para nos fazer participantes dos seus bens. Seu eterno e infinito amor O faz apresentar-se nas vestes da humildade e o fez atravessar o abismo existente entre o céu e a terra. E Jesus se senta à porta do nosso coração e bate... : «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo»[13]. Que Ele não permaneça faminto nos irmãos por não termos aberto para ele a porta do nosso coração como foi o caso do rico epulão.

[1] Lc 16, 19-31.

[2] Flp 3, 19.

[3] 1Sm 2, 8.

[4] Flp 3, 20-21.

[5] Cf. Jo 11, 1-44.

[6] Cf. Mt 9, 18-19.23-26. Veja-se também Mc 5, 21-24.35-43 e Lc 8, 40-56.

[7] Cf. Lc 7, 11-17.

[8] Cf. Mt 128, 11-15.

[9] R. BRUNELLI, Um homem chamado Luís, Loyola, S. Paulo, 1991, p. 113.

[10] S. GREGÓRIO MAGNO, Sermão sobre as coletas, XI sermão in Sermões, Paulus, S. Paulo, 1996, n. 2.

[11] S. JOÃO DA CRUZ, Salita del monte Carmelo, L. III, cap. 25.

[12] Cf. Mt 25, 31-46.

[13] Apc 3, 20