terça-feira, 23 de março de 2010

o poder da cruz



"Ó admirável poder da cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado!" (São Leão Magno, papa e doutor da Igreja, viveu no século V).

Sim, o poder da cruz não é algo a ser desconhecido. Ela é ponte, é altar, é sinal, é vitrine, é fonte, é divisor de águas, é leito nupcial onde do novo Adão, adormentado na cruz, o Pai celeste faz nascer com os místicos sinais do sangue e da água, os sacramentos da Igreja (Batismo e Eucaristia) e faz da Igreja, sua amada esposa, o grande sacramento universal de salvação.

A cruz é fonte de luz, é inesgotável arsenal de vida plena, lá onde Ele deu a vida morrendo, lá onde vindo a óbito, o Esposo matou a morte. Só morre quem quer! Mas, se por suas chagas fomos curados, então a cruz é hospital, é lugar onde nos é dado o ungüento precioso para sanar nossos males e curar nossas chagas.

Salve cruz, esperança única! Salve madeiro sagrado. Que carregando serenamente a cruz de cada dia, diponhamo-nos a seguir Jesus nosso Mestre para com Ele um dia reinar.

Morrereis nos vossos pecados se não acreditardes que eu sou!


Lectio de 22/mar/2010
Disse-vos que morrereis nos vossos pecados, porque, se não acreditais que eu sou, morrereis nos vossos pecados. (...). Mas, aquele que me enviou é fidedigno, e o que ouvi da parte dele é o que falo para o mundo. (...). Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que eu sou, e que nada faço por mim mesmo, mas apenas falo aquilo que o Pai me ensinou. Aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou sozinho, porque sempre faço o que é de seu agrado”. (Jo 8, 24.26.28s)
Morrer no pecado! Algo possível e inexoravelmente conseqüente. Claro, o pecado leva à morte. Para nos tirar da morte, é que Nosso Senhor, por misericordiosa condescendência, pagou na cruz por nossos pecados. "A pregação da fé - diz Paulo - é uma insensatez para os que se perdem, mas para os que se salvam, para nós, ela é poder de Deus" 1Cor 1, 18. Por isso, insistir em não crer nele é sinônimo de mergulhar na morte, adotá-la como princípio e fundamento de um sepultar-se em um triste fim, falência definitiva de uma existência, desespero lancinante. Acreditar, pois quem o enviou é fidedigno, ou seja, fiel e digno, ou melhor, é um alguém digno de fé. Pode-se crer, sem medos ou receios. Acreditar, crer, enfim, que significa? Mais que saber que existe, dizer-se cristão, dizer-se devoto ou sei mais lá o que, bom, crer é aderir. Não é somente escrever: papel aceita tudo. O computador também. Basta escrever! Basta digitar! Os ouvidos das pessoas escutam tudo! Mas, quem haverá de dar crédito? Não serão as vidas que falam por si mesmas? Não serão as escolhas feitas a cada dia? E tal adesão é vital, existencial, envolve uma opção fundamental que, longe de ser uma efemeridade, constitui a fonte de todas as tantas opções feitas não em um ou outro, mas em todos os dias de vida; eis um verdadeiro e radicalmente consciente discípulo de Jesus. Não acreditar que Ele é, ou seja, um com o Pai, tal é mergulhar no erro, na escuridão, na obscuridade mais sinistra. Professamos, pois que Jesus, o Cristo, é Deus de Deus e luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai e por Ele todas as coisas foram feitas. Assim reza o credo niceno-constantinopolitano. Essa é a nossa fé, que da Igreja recebemos, razão de nossa alegria em Cristo Senhor. Essa é a fé que a Igreja recebeu dos apóstolos e que estes receberam de nosso Mestre e Senhor.
O Cristo nos fala o que ouviu do Pai. Com certeza! Ele é a Palavra do Pai e por isso, gerado pelo Altíssimo antes de todos os séculos é quem nos abre as portas para a verdade. Sem Ele ninguém vai ao Pai, pois é o caminho, a verdade e a vida, outro itinerário não há para o céu alcançar. Nada o Verbo faz por si mesmo, pois procede de Quem o gerou. Mas, o Pai, nada faz sem Ele, pois é imagem do Deus invisível. Assim sendo, o Pai nunca deixa o seu Unigênito sozinho, pois sempre Jesus faz o que é do seu agrado. Estar sempre na vontade santíssima de Deus significa necessariamente viver e estar sempre na companhia da Trindade, viver a felicidade da paz autêntica e estável. Isso comporta uma felicidade tranqüila, cheia de luz e de plenitude. Estar na vontade de Deus é viver esta bem-aventurança carregada de eternidade. Não é por nada que os santos diziam que a vontade de Deus era o seu paraíso! Quando o Filho for elevado, então saberemos quem Ele é. Eis os olhos de águia do discípulo amado. Contempla o mistério em toda a sua vastidão e altura, luminosidade e transcendência máxima. Bem, obviamente, isso na medida em que lhe foi permitido sondar. Mas, o que Ele viu, e com ele cremos firmemente, ainda é bem aquém daquilo que realmente Deus é. O Senhor nos ultrapassa infinitamente. Mas, no que for possível colher e acolher, aqui estamos. Vigilantes e orantes, contemplativos e ativos, mergulhados no mar infinito da verdade, beleza e verdade do Inefável por excelência e antonomásia, ante tal esplendor, resta-nos adorá-lo e servi-lo. Olhos de águia de João para contemplar no que foi elevado na cruz um aniquilado, um derrotado, o homem das dores, mas concomitantemente, pasmem todos, lá está o vitorioso, o vencedor, o glorioso. A glória não consiste no sucesso, no estrelismo, na fama, na badalação, no êxito aos moldes humanos. A glória consiste na fidelidade ao querer de Deus. Por isso, o Cristo obediente é um triunfador e todos os que seguem seus passos também o são! Lá na cruz, a missão e verdade de Jesus atingem o seu clímax, para desabrochar na força infinita de vida de sua gloriosa ressurreição. Em vista disso, mais uma vez o apóstolo das gentes contribui: "(...) nós porém, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e insensatez para os pagãos. mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, esse Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus (1Cor 1, 23-24).


ORAÇÃO: Ó Tu que foste elevado da terra, no madeiro e depois, glorioso ascendeste ao Céu. Ó Tu que nos livras para que não morramos em nossos pecados nem sucumbamos em nossas iniqüidades. A Ti rogamos: salva-nos, por Tua cruz gloriosa! Dá-nos, pelo abandono penosamente sofrido em tua dolorosa paixão, a sabedoria da cruz e a inteligência da fé, o intelecto do amor! No calvário, palco de tua vitória, cenário de teu amor infinito, de tua obediência radical e sem precedentes, lá nos uniremos aos discípulos, poucos é verdade, mas leais. Contemplamos-te ó Mestre crucificado e de tua cátedra, ouviremos tuas lições. Contemplamos-te ó Soberano Senhor e em tua coroa de espinhos acolhemos tua desconcertante humildade. Contemplamos ó belíssimo esposo que te apresentas como um verme e que nosso coração se deleite com a verdadeira beleza enquanto esplendor da verdade. Contemplamos-te amigo nosso, amador nosso, homem como nós, solidário conosco, frágil entre os frágeis, sofredor em meio aos sofredores, pobre com os pobres! Ouve o meu clamor e escuta a minha prece: Torna-te irresistível! Nenhuma beleza efêmera e visível, nenhuma mentira bem embrulhada de verdades e evidências aparentes, nenhum bem enganoso e fugaz nos façam perder-te ó adorável. Sê Tu o único! Que as criaturas nada sejam para os que te amam e os que te amam nada sejam para as criaturas. Só a caridade do Espírito que de Ti procede seja nosso guia, nossa bússola! Assim, apegados tão somente a Ti, inseridos em Ti, só cresçamos a cada dia nesta busca incessante de identificarmos nossa vida com a Tua. Amém.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Serás bem sucedido.... (1Rs 2, 2-3.)



2 2Coragem, sê homem! 3Guarda as ordens do Senhor teu Deus, andando por seus caminhos, guardando seus preceitos, mandatos, decretos e normas, como estão escritos na Lei de Moisés; para que sejas bem-sucedido em todos os teus empreendimentos, por onde fores.

As palavras o velho Davi, já no leito de morte, trazem uma densa força exortativa que nos introduzem no projeto grande de Deus, uma projeto que ultrapassa imensamente as capacidades humanas, mas introduzem as pessoas no caminho da aliança. Fidelidade à aliança, fidelidade a Deus, fidelidade, por conseguinte, a si mesmos.

A vida do povo de Israel é marcadamente peculiar. Não cabe ao povo viver como todos os povos, mas assumir as particularidades que são, na verdade, importantes diferenciais. Ser homem, ser mulher, ser gente é algo que necessariamente passa por uma humanidade construída a partir do projeto de Deus, extremamente humanizador, qualificador. Guardar os mandamentos, preceitos, decretos e normas, ser cumpridor da lei divina é caminho que propiciará de todas as formas na edificação da mais genuína realização humana.
Ser bem-sucedido não pode, à luz do novo testamento, levar a uma visão triunfalista ou de uma prosperidade meramente humana. Ser bem-sucedido significa dar todos os passos para que, na mais generosa abertura, o cristão se disponha a viver o projeto de Deus até às últimas conseqüências. E isso, não dispensa entrar no mistério do Cristo morto e ressuscitado. Prosperidade para Deus é fidelidade à sua vontade e cristificação. Cristificar-se necessariamente significa morrer para ressuscitar. Daí que a pobreza, o desprendimento, a humildade, a porta estreita, o último lugar, ser servo, ser manso e humilde, ser puro de coração, ser amante da paz, ser misericordioso, dispor-se a carregar a cruz renunciando a si mesmo, amar na mais pura gratuidade e oblatividade, passar pela porta estreita, em suma, viver o Evangelho. Prosperar para Deus é isso. O resto, bem, é conversa!

ORAÇÃO: Pai Santo, concede-nos a prosperidade que nos introduz na vida plena que nos queres dar. Nosso coração esteja vigilante nesta busca sincera e generosa. Nossos critérios de alegria, realização, prosperidade estejam sempre sintonizados com o Evangelho enquanto fonte de vida e de plenitude. Nós te bendizemos e te agradecemos por isso e rogamos instantemente que tu nos sejas propício e nos atendas. Por Cristo, Nosso Senhor, Amém.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Deus contruirá uma casa para ti!




2Sm 7, 4-17;
Uma promessa a Davi: “Iahweh te diz que ele te fará uma casa” (v. 11). Aqui está o centro deste texto. Com efeito, Deus tomar a iniciativa de construir uma casa para seu eleito, está dando a entender, ou melhor, revelando que a sua graça viabilizará uma morada. Habitação, lugar de moradia está a indicar uma vivência, uma existência, um projeto existencial, um construir-se feito de capacidade de pensar, decidir e fazer opções, sentimentos, sofrimentos e alegrias. Não é algo distante de nós.


Deus quer construir uma casa, a casa da nossa vida e ser ele o engenheiro e mestre de obras. Nosso papel? O servente de pedreiro. Certamente atuaremos, teremos participação ativa, mas enquanto atores coadjuvantes, sendo Ele o ator principal. “Se o Senhor não constrói a casa, em vão trabalharão seus construtores. Se o Senhor não vigiar nossa cidade, em vão vigiarão as sentinelas” (Sl 126[127], 1). O senhorio de Jesus não pode acontecer sem esta disposição interior, esta decisão firme e estável em disponibilizar as rédeas da vida, da construção da história. “A Sabedoria edifica sua casa, a Estultícia a derruba com as mãos”. (Pr 14, 1). Por isso, será Cristo Senhor quem construirá uma casa para o nome de Seu Pai e nosso Deus (cf. v. 13). Claro, o texto refere-se a Salomão, imediatamente, mas em uma amplidão maior de compreensão, diz respeito ao Messias de Iahweh, Filho seu muito amado em quem pôs suas complacências. Este Cristo, como nos diz o texto terá uma realeza estável, firme. Certamente não uma soberania e realeza firmada sobre uma autoridade política ou um domínio de territórios, algo institucionalizado no sentido de um executivo com poder jurisdicional como acontece com os governos da terra. Será uma autoridade, um senhorio interior, feito sob ação da graça, no poder da palavra revelada e acolhida por meio de fé, da sobrenaturalidade da obediência, que porta consigo seus desdobramentos de adesão livre ao querer de Deus. Uma interioridade que certamente se exterioriza em opções, iniciativas, princípios e valores. Eis o Reino de Deus!
“Se ele fizer o mal, castiga-lo-ei com vara de homem e com açoites de homens. Mas minha proteção não se afastará dele, (...)”. Certamente Salomão pecou, em função das más influências das mulheres estrangeiras que tomou como esposas, as quais o induziram à idolatria (cf. 1Rs 11, 1-13). Ora, Cristo não pecou, não fez o mal. Isso é incontestável! Mas Ele assumiu o mal que a humanidade cometeu. Ele carregou as faltas dos pecadores. “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29). Ou como diz o profeta: “Mas ele foi trespassado por causa das nossas transgressões, esmagado em virtude das nossas iniqüidades. O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre ele, sim, por suas faltas fomos curados” (Is 53, 5). Assim, o sábio edificador da casa de Deus, revelou seu poder magnífico, feito de amor misericordioso, gratuito, puro, santo e santificador. Ele é o servo, o servidor, o pobre, o humilde: Eis as insígnias reais do divino soberano. Somos nós suas casas, sua moradia santa. “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? (...). Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus?... e que, não pertenceis a vós mesmos?” (1Cor 6, 15a.19).


Ensinar-nos-á São João da Cruz: “Está Deus, pois, escondido na alma, e aí o há de buscar com amor o bom contemplativo dizendo: onde é que te escondeste? Eia pois, ó alma formosíssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber o lugar onde está teu Amado, a fim de o buscares e a ele unires! (...). Que mais queres, ó alma, e que mais buscas fora de ti, se tens dentre de ti tuas riquezas, teus deleites, tua satisfação, tua fartura e teu reino, que é teu Amado a quem procuras e desejas? Goza-te e alegra-te em teu interior recolhimento com ele, pois o tens tão próximo. Aí o deseja, aí o adora, e não vás buscá-lo fora de ti, porque te distrairás e cansarás; não o acharás nem gozarás com maior segurança, nem mais depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti. Há somente uma coisa: embora esteja dentro de ti, está escondido. Mas, já é grande coisa saber o lugar onde ele se esconde, para o buscar ali com certeza. É isto o que pedes também aqui, ó alma, quando com afeto de amor, exclamas: Onde é que te escondeste? No entanto – prossegue o doutor místico – dizes: Se está em minha alma, como não o acho nem o sinto? A causa é estar ele escondido, e não te esconderes também para achá-lo e senti-lo. Quando alguém quer achar um objeto escondido, há de penetrar ocultamente até o fundo do esconderijo onde ele está; e quando o encontra, fica também escondido com o objeto oculto. Teu amado Esposo é este tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante deu todas as suas riquezas (Mt 13, 44)” (Cântico Espiritual, Canção I, n.6-8). Paulo, o apóstolo, nos brinda com sua autoridade, dizendo o mesmo que o São João da Cruz: “pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3).


ORAÇÃO: Rogamos, ó divino engenheiro, Tu que és eterno mestre de obras, vem e constrói esta casa de nossas vidas. Não permitas, ó Senhor, que por nossa negligência e por nossa irresponsabilidade a tua casa fique sem reboco ou acabamento, sem as instalações elétricas ou hidráulicas. Tu que assumiste as nossas dores e culpas, Tu que recebes do Pai o Reino eterno, vem em socorro de nossa pobreza e indigência com tua graça. Que ela não nos falte, pois sem ela nada somos e nada fazemos. Nós te suplicamos por ti mesmo, Tu que és Deus com o Pai e o Espírito Santo. Amém.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Capazes de refletir




Diz São Basílio, o grande, bispo e doutor da Igreja do século IV:


"Que palavra poderá verdadeiramente descrever os dons de Deus? São tantos que não se podem enumerar. São de tal grandeza que um só deles bastaria para merecer toda a nossa gratidão para com o Doador. Há um que a nós, seres racionais e inteligentes, seria forçosamente impossível esquecê-lo, e pelo qual jamais o louvaríamos condignamente: Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Honrou-o, assim, com a reflexão. Só ele, dentre todas as criaturas, deu a razão" (Da regra mais longa de São Basílio, PG 31, 914-915).


Somos dotados de liberdade e de consciência, da capacidade de decidir. Mas, tal capacidade vem das possibilidades imensas de pensar, refletir, analisar, ponderar, avaliar. Levar em consideração os prós e contras, tudo isso ajuda muito a construir o projeto bonito que Deus tem no sentido de sermos dotados de imensas possibilidades de escolhas. Não como os irracionais que seguem os instintos, são condicionados por tantas situações do ambiente ou das estimulações, tão somente.


Isso acarreta uma imensa responsabilidade (somos capazes de responder).


Pense, pois você é capaz de pensar e refletir e tire as lições para a sua vida!


Um abraço e bênção do Padre.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Dai-lhes vós mesmos de comer.... (Mc 6, 34-44)



Ante as multidões, semelhantes a ovelhas sem pastor, Jesus delas tem piedade e compaixão. Pessoas abandonadas, entregues à ignorância, negligenciadas por aqueles que lhes deveria fornecer o alimento da verdade e os cuidados pastorais. Um povo que submerge na desorientação. E a atitude do Senhor ante aquela carência é ensinar-lhes muitas coisas. A missão da Igreja será ensinar muitas coisas, irradiar a verdade, soltar-lhe as asas a fim de que ilumine, liberte, promova, salve. A Igreja é mestra, não por ser dona da verdade, mas guardiã desta verdade que recebeu de seu divino Fundador. Não seguirá os modismos, não se sujeitará as alternâncias dos tempos e as conseqüentes flutuações das mentalidades, onde os critérios de certo e de errado, de bem e de mal oscilam fortemente e se adaptam as conveniências momentâneas dos indivíduos e dos grupos sociais, bem como dos sistemas econômicos, das ideologias e interesses políticos os mais diversos. João Paulo II, a esse respeito, afirmou de forma cabal:
Sendo assim, não se trata de inventar um “programa novo”. O programa já existe: é o mesmo de sempre, expresso no Evangelho e na Tradição viva. Concentra-se, em última análise, no próprio Cristo, que temos de conhecer, amar, imitar, para nele viver a vida trinitária e com ele transformar a história até a sua plenitude na Jerusalém celeste. É um programa que não muda com a variação dos tempos e das culturas, embora se tenha em conta o tempo e a cultura para um diálogo verdadeiro e uma comunicação eficaz. Esse programa de sempre é o nosso programa (...). (NovoMillenioIneuntem, 29).
Ensinar: missão da Igreja que, não pode esconder a luz, mas fazê-la iluminar para que as boas obras promovam o louvor e a glorificação de Deus (cf. Mt 5, 14-16).
O lugar, onde a multiplicação dos pães acontece é deserto e a carência de recursos leva os discípulos a pensar em soluções onde a pobreza dos meios, os isentaria de certas responsabilidades ante as pessoas. É fácil renunciar ao compromisso, deixar de lado o engajamento, não se comprometer. A missão nos transcende, as exigências das urgências nos ultrapassam. Mandar aos povoados parece sempre uma solução mais fácil, razoável, cômoda de modo a desembaraçar do imbróglio. Na contramão desta mentalidade, imbuída de absentismo, o Senhor lança um desafio e tanto: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Noutras palavras, assumam o desafio de ir ao encontro das necessidades destas pessoas e vivam o protagonismo que lhes cabe neste processo. Não fiquem estacionados nos limites, mas enxerguem na presença de Deus, as possibilidades que lhes são concedidas a fim de que a Providência vá ao encontro das pessoas através de vocês. Ante tal imperativo, os discípulos se acham mergulhados em uma mentalidade monetária, calculista: falam em cifras. O verbo comprar não dá lugar ao verbo partilhar! Jesus ao invés, fala em partilha, em comunhão de bens, em generosidade, assinalando com clareza que o pouco com Deus é muito. “Quantos pães tendes? Ide ver”. É preciso verificar sem medo que somos pobres, que nossos recursos nunca são suficientes. “Cinco pães e dois peixes”. Sem comentários! Entretanto, apresentá-los ao Senhor, pedir sua bênção e pô-los à sua disposição haverá sempre de ser um gesto corajoso de fé, fonte de milagrosas surpresas, pois Deus sabe surpreender quem nele confia. Para alimentar as multidões foram dividas em grupos para facilitar a distribuição. Sentados na verde grama, as pessoas lembram as ovelhas que são alimentadas pelo bom pastor que as conduz para os bons pastos de seus cuidados (cf. Sl 23(22), 2). Sentar-se é o gesto dos convidados para um banquete. Realizando um gesto eucarístico de dar graças e pronunciar a bênção, Jesus partiu os pães. Partir é base para o repartir. Para repartir, Jesus se serve da mediação de seus discípulos. Não é para estranhar esta metodologia do Divino Mestre que não cessa de servir-se de tal mediação para conceder seus dons a seu povo. Por isso, não é possível pensar uma caminhada de Igreja sem assumir, com vigoroso espírito de fé, a obediência e visão sobrenatural daqueles que nos conduzem, em nome do Senhor. Haverão de partilhar o pão que receberam das mãos do Mestre. E destas mãos frágeis, seremos alimentados pelo próprio Deus. E o resultado foi surpreendente: “Todos comeram e ficaram satisfeitos”. Claro, sempre haverá saciedade quando se entende que a medida vem de Deus. Ele sabe o que nos dá e o que nos nega. Mas, conta conosco para que seus desígnios salvíficos se cumpram e sua providência alcance a todos os que ele deseja alimentar através de nossa pobre contribuição. Recolheram doze cestos, cheios de pedaços de pão e também dos peixes. Simbólico, emblemático, significativo: doze! Número cósmico das doze tribos e dos doze apóstolos e das doze estrelas da mulher do apocalipse! Indica plenitude. Vai, e também tu, faze o mesmo (Lc 10, 37): Dá-lhe tu mesmo de comer!

ORAÇÃO: Que assim seja: que eu faça o mesmo e me sinta responsável por aqueles que me confias. Colabore contigo e seja feliz, sendo teu sinal, teu canal, teu instrumento. Feliz assim!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O REINO DA VERDADE E O CAMINHO DA LIBERDADE DOS SEGUIDORES DO REI



“És tu o rei dos judeus? Assim perguntou Pilatos a Jesus, após a cruel flagelação no pretório, ao que Jesus replicou com uma pergunta: “Estás dizendo isso por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?” (Jo 18, 33-34). A esta pergunta, vem à tona o anseio que o Senhor tem sobre o sentido a ser dado à sua soberana realeza. Com efeito, ao afirmar-se rei dos judeus, o Divino Redentor nega que é rei aos moldes de uma compreensão meramente humana, haja vista seu reino não ser deste mundo (cf. Jo 18, 36). Mas, com certeza Ele é Rei! (cf. Jo 18, 37). No entanto, o seu reino se realiza porque nele é atuante a verdade: “Quem está a favor da verdade escuta a minha voz”, diz Jesus (Jo 18, 37). Estar do lado da verdade significa acolher a revelação do Pai através do Filho e sob a guia segura de seu Espírito. Não vale a neutralidade. O julgamento que o divino juiz flagelado estabelece diante de Pilatos é de separação; respostas evasivas como a do governador romano (e de todos quantos ficarem em cima do muro) indicam a não-aceitação desta verdade. Longe desta onda de relativismos vagos e amorfos, a verdade revelada é sólida, estável, plena e eterna. E esta, ao encontrar a pessoa, ao vir ao encontro de cada homem e mulher evoca e requer uma experiência pessoal, crescente, provocadora de respostas existenciais concretas e comprometidas. E tal comprometimento não pode vir a não ser de uma experiência com esta verdade. Dirá João Paulo II:

“A verdade da revelação cristã, que se encontra em Jesus de Nazaré, permite a quem quer que seja perceber o “mistério” da própria vida” (Fides et Ratio, n. 15).
Os critérios de liderança, ou de soberania, de poder e autoridade, conforme o pensamento de Jesus, caminham na contramão das mentalidades e procedimentos deste mundo. As pessoas que chegam ao poder correm o sério risco de fazer dele um instrumento egoísta da busca de si mesmo, uma corrida atrás de privilégios, trampolim para uma ascensão sem fim, estrelismo, jogo de influências, auto-projeção, a mania de tirar vantagem das situações e impor-se. A vaidade é uma ilusão mentirosa e se assemelha à fumaça. Será dispersa pelo Vento do Espírito: “Depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1, 52), dirá Maria, a humilde serva do Senhor. Quando as pessoas vivem na verdade, necessariamente são livres e por isso amam. Livres para amar, serão felizes de modo estável, serão felizes efetivamente. A verdade de Deus conduzirá o homem e a mulher à humildade que por sua vez, longe dos complexos de inferioridade ou dos medos infantis, gera um senso de responsabilidade em agir fazendo o melhor uso dos bens recebidos e administrados. Ser humilde é ser consciente de que tudo foi dado e, na condição de administradores, tudo há de devolver Àquele que é o legítimo proprietário de tudo quanto existe. Esta devolução acontecerá no dia da morte. Por conseguinte, a humildade se mede muito pela liberdade em se auto-perceber como existência doada, ser inacabado, imperfeito, em processo, aprendiz e eterno discípulo que nada sabe e quer aprender. Ser humilde significa ser desapegado por manter sob controle o instinto de posse sob a certeza inequívoca da efemeridade de tudo, de todos. Assumir-se peregrino, viajante significa inexoravelmente ter uma meta. Ter a eternidade por alvo não é presunção, mas destino de quem centrou a vida no que é definitivo. Alvo de quem? De todos quantos vivem na verdade. Presunção seria querer alçar o livre vôo da contemplação da verdade com as asas da razão e da fé (cf. FR Introdução) se tal não nos fosse dado por um chamado divino, uma eleição gratuita; Tal iniciativa não é em função de méritos pessoais, mas na força de uma escolha divina: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi e vos destinei para que vades e produzais fruto e o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 16). Na eleição dos discípulos o “Senhor subiu ao monte e chamou quem ele quis” (Mc 3, 13).
Que Reino é esse que é dos pequeninos, dos pobres, dos mansos, dos aflitos por não verem Deus amado, dos que têm fome e sede de santidade, dos perseguidos por causa do Evangelho e da justiça, dos que promovem a paz inquieta e plena? (cf. Mt 5, 1-12). Que Reino é esse que responsabiliza e engaja as pessoas, fazendo-as instrumento de transformação, revolucionárias com as armas da oração, do amor oblativo que se faz serviço e transforma a vida do crente em um discipulado sem fim? (cf. Mt 5, 13-16; 23, 8-12). Eis o Reino que não é deste mundo. Com efeito, as ideologias, as mentalidades egoístas e manipuladoras, doutrinas falsas e opiniões enganosas, propostas sedutoras de uma felicidade construída sobre a areia movediça da facilidade, informações comprometidas com projetos obscuros onde o prazer, o poder e o ter dão as coordenadas da pseudo-segurança fugaz, as falácias e meias-verdades, tudo isso vai gerando fragmentações nos corações humanos. “A visão orgulhosa do homem será humilhada e a soberba dos grandes abatida; naquele dia, somente o Senhor será exaltado” (Is 2, 11).
A verdade: contemplá-la, amá-la, servi-la generosa e fielmente, assimilá-la ao ponto de deixar-se governar por ela, haverá de ser o grande meio para atingir a mais genuína liberdade, e, a partir desta, chegar à felicidade. Escutar a verdade é obedecê-la. Ao lançar-se na escuta, a pessoa de fé se põe em uma postura de acolhida da Palavra que ilumina e conduz, alimenta e faz caminhar. Vale considerar o que São Bernardo ensina: “Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes. Alimenta-te deste bem e tua alma se deleitará na fartura. Não esqueças de comer o teu pão para que teu coração não desfaleça, mas que tua alma se sacie com este alimento saboroso. Se assim guardares a palavra de Deus, certamente ela te guardará. Virá a ti o Filho em companhia do Pai, virá o grande Profeta que renovará Jerusalém e fará novas todas as coisas” (S. BERNARDO, Sermão 5 In Adventu Domini, 3). Que esta palavra, portanto, nos alimente e vivifique a nós súditos de Sua Divina Majestade.